125 Anos do Jornal O Riomaiorense . Sessão Comemorativa (11)

                                                    

 

 

                                     

 

 

 

 

Luís Laureano Santos: Só queria dizer o seguinte: o Adelino pediu-me para arbitrar estas duas intervenções, aparentemente em conflito, e eu queria dizer que essas vossas duas intervenções me lembraram o conflito que confronta os ovos com o presunto. Esse conflito resolve-se considerando que o que é bom é tudo junto!

 

Adelino Gomes: Então agora, num instante, estas dicas, com base em que a crise do jornalismo é estrutural e as Redacções precisam de inovar. Portanto, partem do princípio de que o jornalismo é útil. E a primeira é:

  • Mostrar quem você é e de que perspectiva. Assumir a perspectiva geográfica, assumir a perspectiva sócio-demográfica, a perspectiva política. A partir de que perspectiva você vê o mundo, a terra.

  • A outra é: transformar o que antes era conhecido como assinantes em membros. Que devem registar-se e pagar para juntarem-se aos círculos internos. É uma coisa muito interessante que está a acontecer muito nalguns países, incluindo em França, que é as antigas audiências não serem só... eu sei que é muito difícil arbitrar isso e gerir isso... porque todas as pessoas começam a dizer: - eu também quero escrever o Editorial, eu também quero não sei o quê. Mas quer dizer, fazer isto... há um tempo em que as pessoas também entram. E eu julgo que isso a nível local é bastante importante.

 

  • O outro é: novas formas de fazer o jornalismo físico. É muito engraçado isto, o jornalismo físico, na forma de reuniões públicas, festivais, eventos, peças teatrais. (Falando para Luís Laureano Santos) Depois de teres contado como quando eras menino havia aqui todas essas actividades culturais e tudo isso, pensei assim: olha, se calhar o Riomaiorense do futuro pode ser um pouco isso, quer dizer, juntar as pessoas em volta de uma coisa qualquer, que já não é só um órgão de informação, é um modo de viver, e de viver a cultura, não é? O jornalismo físico é um conceito muito engraçado. Li-o pela primeira vez aqui. Reuniões públicas, festivais, eventos, peças teatrais, quer dizer, envolver as pessoas, juntar as pessoas, e o dinamizador pode ser um meio de comunicação que agora não interessa nada, se calhar já não há papel, não há dinheiro... é tudo isto, todos estes meios.

 

  • Depois: passar do falar ao ouvir. Que era aquilo um pouco que eu dizia. Mais do que tudo significa ouvir os cidadãos e criar mais transparência nos assuntos editoriais. Quer dizer, as pessoas saberem as questões que se colocam.

 

  • E depois, este então vai mais longe ainda, que é: envolver os cidadãos durante todo o processo jornalístico, da idealização à pesquisa, passando pela entrega do conteúdo independente ao subsequente debate das histórias publicadas. (Falando para Luís Laureano Santos) Tu vinhas para aqui, para a Redacção, e até, com os teus doze ou treze anos, até querias participar nas coisas das assinaturas, não é? Quer dizer, envolver as pessoas de outra forma.

 

  • E de outro lado também, apesar da ressalva de colocar o conteúdo nas redes sociais, que enfraquece as oportunidades de negócio e de controlo jornalístico, os autores identificam que elas têm grande potencial para aprimorar e aprofundar o engajamento. O uso inteligente das plataformas dos conteúdos.

 

  • Depois há uma coisa aqui sobre o jornalismo construtivo que daria pano para mangas, e de observadores a activistas a que eu ponho muitos pontos de interrogação, mas valia a pena ter isso em conta.

 

Mas uma das maneiras que, por exemplo, nos Estados Unidos e em França se está agora a fazer, é constituírem-se os homens bons, que no fundo fundaram estes jornais, as pessoas interessadas, e eram republicanos pelo que eu li, foi naquela fase final, 1890, não é, que quiseram afirmar Rio Maior na vida política também. Esses homens bons deram o seu melhor nisso, deram o seu tempo, deram o seu dinheiro. O seu tempo e até também a sua segurança.

Ora bem, eu penso que há experiências em que os Belmiro de Azevedo dos anos 80-90 em Portugal... E eu acho que isso seria uma salvação, por exemplo, para jornais como o Público e o Diário de Notícias.

Por exemplo, nos Estados Unidos há uma coisa chamada ProPublica, que é um conjunto de homens ricos, naquela concepção cultural americana do mecenas. Juntam-se e dizem assim: o jornalismo é essencial à democracia. Se é essencial à democracia e nós queremos que o nosso país continue em regime de democracia, nós vamos pagar para ter um jornalismo livre e independente. E então dão milhões.

 

Hoje há reportagem... aquilo de que os jornalistas hoje se queixam: como é que nós podemos contar o que se passa no mundo se não vamos lá? Temos que ir lá, temos que ter tempo para fazer pesquisa, etc. Então, haver instituições, fundações nesse sentido como a ProPublica... o Soros dá dinheiro para outras coisas a nível da política.

 

E, portanto, o que se podia fazer numa terra [como Rio Maior] era os homens bons, as mulheres interessadas e conscientes, as pessoas juntarem-se e dizerem assim: vamos lutar por aquilo que vale a pena. E uma das coisas que vale a pena é nós podermos discutir aquilo que nos divide e estarmos informados sobre aquilo que se passa aqui à volta, porque não temos tempo para saber tudo, se não [houver] uns tipos a quem nós damos essa função. E, se se fizer isso, eu penso que se está, não é a salvar o lugar de trabalho de um jornalista, é a salvar a vida em comunidade.

(Continua na página seguinte)

"Mostrar quem você é e de que perspectiva. Assumir a perspectiva geográfica, assumir a perspectiva sócio-demográfica, a perspectiva política. A partir de que perspectiva você vê o mundo, a terra."

Adelino Gomes

 

"E, portanto, o que se podia fazer numa terra [como Rio Maior] era os homens bons, as mulheres interessadas e conscientes, as pessoas juntarem-se e dizerem assim: vamos lutar por aquilo que vale a pena."                   Adelino Gomes

 

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