125 Anos do Jornal O Riomaiorense . Sessão Comemorativa (13)

                                                    

 

 

                                     

 

 

 

 

Com o fim da Fundação Lopes, em 1996 o título foi entregue aos trabalhadores que quiseram prosseguir o projecto. Foi a forma de os compensar porque não havia como os indemnizar.

 

Esses trabalhadores – que eram três mas a que se juntou o Director do semanário, Feliciano Júnior – constituíram-se em sociedade a que se juntou uma outra pessoa a qual, mais tarde, cederia a sua quota a quem manteve o projecto e o desenvolveu. Um pouco antes, dois dos três associados originais saíram por opção de vida e cederam gratuitamente as respectivas quotas a quem ficou. Fiquei eu.

 

Com a ajuda da minha mulher e dos nossos filhos, Ivan e Houari, ambos jornalistas, bem como de jornalistas como a Catarina e a Zélia, e o empenho da Marisa, uma estagiária de 18 anos de idade da EPRM que findo o estágio passou a efectiva e se manteve connosco durante outros 18 anos, até 31 de Dezembro de 2017, o jornal publicou-se sempre.

 

Nos últimos cinco a seis anos foi necessário – e digo isto literalmente – tirar da boca para manter o jornal em publicação, porque entendíamos que era um serviço imprescindível à comunidade. Fomos até onde pudemos!

 

Com a desistência governamental da Ota, seguida pouco depois pela crise internacional desencadeada pela voracidade do mundo financeiro, veio o cortejo do fecho de empresas e estabelecimentos comerciais e a perda de população que teve que partir em busca de trabalho. Tenho um amigo, que só da parte dele chegou a ter 40 pessoas das suas relações ou suas conhecidas, emigradas na Bélgica. Com este estado de coisas a publicidade foi desaparecendo paulatinamente. E é preciso perceber que, no interior, não são as marcas que dão sustentabilidade ao que quer que seja em matéria de publicidade: é o Comércio e esse está como ainda se vê.

 

A isso juntou-se a austeridade. Como disse aqui há tempos Lobo Xavier, na Quadratura do Círculo, não exactamente por estas palavras, o Governo crava uma estaca, o Estado segue- o e faz o mesmo, as autarquias seguem o exemplo e a maioria dos empresários imitam-nas. Geralmente, no interior essa fatura é especialmente paga pela Comunicação Social que fica sem sustentabilidade.

 

Claro que as chamadas redes sociais também contribuem para a vida difícil ou impossível de muitos jornais. Nem sequer vou perder tempo a falar do que por lá se diz... Sugiro apenas que olhem para a publicidade desenfreada que veiculam e que vai parar aos vossos tablets porque as redes são como vasos comunicantes e não separam o trigo do joio, desde o anúncio de uma festa até ao da venda de apartamentos e vivendas, passando pelos automóveis, o mobiliário, as confecções, editais, avisos, etc. e que se interroguem: pagam IVA? É que uma coisa é a publicidade tratada formalmente, por exemplo com o Facebook e outra completamente diversa é a que é despejada nas redes e “está-se bem”.

 

Um jornal, pelo contrário, tem porta aberta. Paga tudo. O que publica fica publicado, fica registado para quem quiser “conferir”.

 

Depois, as ditas redes sociais introduzem, pela sua natureza, elementos de distorção na comunicação, desde logo a falta de rigor que nem sequer lhe é exigível. Essa exigência está reservada ao jornalista. Muitas vezes, a informação postada resume-se a duas ou três linhas, é quase críptica, não se sabe ao certo do que se fala, onde é, quando, porquê, quem, como, enfim esses quesitos mínimos básicos.

 

Sinceramente, temo uma contaminação cada vez mais evidente das “entidades” por este tipo de “informação”, porque é mais fácil, é simples e se calhar até pode fazer “jeito”. Porque, por exemplo, uma coisa é “noticiar” que o responsável «X» foi a tal sítio onde observou in loco os problemas e discutiu-os com os responsáveis locais e outra coisa completamente diferente e substantiva para o interesse público é noticiar que o responsável «X» foi a tal sítio, observou in loco os problemas «A», «B» e «C» que estão a afectar a vida da população e discutiu-os com os responsáveis locais, tendo ficado decidido fazer isto e aquilo para os resolver. É o mínimo que se deve exigir.

 

Rio Maior está sem jornal em papel. O jornal não está em casa dos leitores que o compravam nas bancas, nem chega pelo correio aos assinantes. O jornal não está nas mesas dos cafés, nas barbearias e nos balcões das lojas.

Talvez poucos saibam que as tipografias que imprimem jornais estão obrigadas a enviar um certo número de exemplares de cada edição, para a Biblioteca Nacional. Esta fica com alguns e distribui os restantes pelas bibliotecas mais importantes do país.

 

Não havendo jornal em papel em Rio Maior, há um apagão sobre o concelho de Rio Maior nas Bibliotecas, pelo menos em versão independente.

 

Tenho para mim que a aposta desabrida na comunicação social electrónica é um risco tremendo para a Humanidade que poderá perder, em segundos, o que levou décadas a noticiar, a descrever e a registar. Parece-me evidente, e os ficcionistas científicos vêm falando disso desde finais do século XIX, que em caso de conflito global e até regional, os ataques mais devastadores serão os que visarem os meios cibernéticos uns dos outros... até porque não haverá proteção possível. Nem “nuvens”, nem Montanhas Rochosas.

 

Muito obrigado.

Regiao de Rio Maior 1525.jpg

Capa da Edição n.o 1525 do jornal Região de Rio Maior, 29 de Dezembro de 2017. © jornal Região de Rio Maior.

"Nos últimos cinco a seis anos foi necessário – e digo isto literalmente – tirar da boca para manter o jornal em publicação, porque entendíamos que era um serviço imprescindível à comunidade. Fomos até onde pudemos!"

 

"Não havendo jornal em papel em Rio Maior, há um apagão sobre o concelho de Rio Maior nas Bibliotecas, pelo menos em versão independente."

 

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