125 Anos do Jornal O Riomaiorense . Sessão Comemorativa (6)

                                                    

 

 

                                     

 

 

MESA REDONDA: PASSADO, PRESENTE E FUTURO DA IMPRENSA REGIONAL . LUÍS LAUREANO SANTOS

 

A Manuela e o Adelino são assim. Quando o Adelino me telefonou a desafiar-me para vir a esta cerimónia, porque foi ele que me telefonou dizendo que vinha aqui fazer esta intervenção, acrescentou que gostaria muito que eu nela participasse, eu hesitei muito porque estou afastado do jornalismo há cinquenta anos, ou coisa que o valha, se alguma vez lá estive... E digo porquê. Eu fui colega do Adelino. Curiosamente, não sei se te recordas, Adelino, mas fui eu que te fiz exame para a entrada no Rádio Universidade. Lembras-te disso?

 

Adelino Gomes: E puseste-me em décimo-primeiro lugar, em doze.

Luís Laureano Santos: Vejam bem a qualidade dos candidatos.

Adelino Gomes: Quando eu ia para reportagens ali no aeroporto, encontrava-me sempre com um fulano que era oficial de tráfego do aeroporto, que tinha ficado em décimo-segundo lugar e ficava sempre: "pronto, este ainda é pior que eu!"

 

Luís Laureano Santos: Ora bem, pois nós encontrámo-nos nessa altura. Evidentemente que depois, ao mesmo tempo que eu fazia o curso da faculdade, lá andei pelo Rádio Clube Português, pela RTP, com muito prazer. Ainda hoje pergunto a mim próprio como é que foi possível fazer a faculdade sem ter chumbado, estando ao mesmo tempo nas estações de rádio e na televisão. Mas lá consegui fazer o curso normalmente. Aliás encontrei a Luísa, minha colega de curso nessa altura. Tive o gosto de hoje a encontrar, depois de não a ver há cinquenta anos. Encontrámo-nos aqui, hoje, hoje. E na faculdade até nos dávamos bastante em termos de estarmos na conversa com todos os nossos colegas dessa altura.

 

Ora bem, mas depois destas duas intervenções de dois ilustres jornalistas, com esta qualidade, eu confirmo aquilo que disse ao Adelino: eu só vejo lugar para uma participação numa cerimónia dessas desde que vá falar de recordações. Primeiro, porque não faço jornalismo há tantos anos, segundo, porque efectivamente, eu vivi o Riomaiorense. E explico porquê: o Riomaiorense ficava na casa ao lado daquela em que eu nasci e onde vivia quando estive em Rio Maior. E desde muito novo, embora eu me recorde disso talvez... tudo isso se passa no princípio da segunda metade do século passado, mas senti-me muito próximo do Riomaiorense por coisas que não tinham rigorosamente nada a ver com jornalismo. Porque tinha muito gosto em sair de minha casa, andar dez metros, se tanto, e entrar no gabinete onde se fazia, onde se trabalhava o Riomaiorense, para ajudar a fazer as cintas dos exemplares que eram remetidos aos assinantes pelo correio. Isso permitia-me, além desse trabalho juntamente com um funcionário que, se bem me recordo se chamava Jorge, que trabalhava lá mesmo... Eu ia com muito gosto por duas razões: primeiro porque estava entretido a fazer as cintas dos jornais, que achava aquilo uma actividade com muita graça, segundo, porque podia ler o Riomaiorense.

 

Aliás, devo dizer-vos que eu acho que o Riomaiorense desse tempo - o Riomaiorense tem 125 anos -  mas, desse tempo, foi alimentado por um grupo de riomaiorenses, um grupo notável, uma geração notável cujo último representante, se assim posso chamar, nos deixou há pouco, foi o Professor António Feliciano. Mas um grupo de riomaiorenses notável que conseguiu numa vila que estava longe de tudo... hoje há auto-estradas, na altura não havia. Hoje há telemóveis, na altura não havia telemóveis, e se queríamos fazer uma chamada para as Caldas da Rainha, aqui ao lado, pedíamos de manhã para recebermos na melhor das hipóteses a meio da tarde, uma chamada que muitas vezes já não nos apanhava no sítio onde a gente a tinha pedido. Hoje não é assim. Hoje Caldas da Rainha fica aqui, Lisboa fica deste lado, mas na altura Lisboa estava quase do outro lado do mundo, e numa vila como era, um grupo de homens notáveis conseguiu fazer, além da alimentação do Riomaiorense, em termos de jornal, nessa altura sob a Direcção de Armando Pulquério, conseguiu fazer nesta vila uma Orquestra e um Grupo Coral, um Cineclube, que além das projecções comentadas de filmes, fazia mesmo filmes. Não sei se se recordam das Pupilas do Sr. Prior, do Fernando Duarte?

 

Eu não queria falar em nomes porque seria seguramente injusto para muitos que colaboraram e que eu não me irei recordar. Fizeram um colégio e uma Escola Comercial. Fizeram um Grupo de Teatro, o Zé P'reira. E tudo isso funcionava num ambiente de onda cultural que, curiosamente, era extremamente bem recebida pelas pessoas que, pela sua vida privada nem sequer se dedicavam à cultura, mas que participavam com entusiasmo em todas essas iniciativas e que eram uma festa em Rio Maior. Eu recordo-me perfeitamente das peças de teatro na Casa do Povo, que já desapareceu. E lembro-me, por exemplo, de um dia ir à Casa do povo fazer não sei o quê... eu era um miúdo nessa altura. Saí de Rio Maior com treze anos. E de encontrar... fiquei eu pasmado... o Dr. Fernando Sequeira Aguiar de fato-de-macaco a trabalhar na elaboração dos cenários da peça que ia ser representada dias depois. Ou seja, aqui a cultura misturava-se entre a cultura erudita, propriamente dita, com a cultura do trabalho que era preciso fazer e que aparecia feito em associação, e recordo-me que todos se tratavam como iguais. Não havia ali hierarquias. Eram projectos comuns que tinham de andar para a frente.

 

Eu na altura não me apercebi disso. Achei que era a coisa mais natural do mundo ter numa vila como Rio Maior teatro, cinema, até cursos de cinema, até concursos de filmes de amador que decorriam aqui em Rio Maior e que eram reconhecidos, digamos, no país inteiro. Vinha gente, eu lembro-me inclusivamente de vir um cineasta amador que era, salvo erro, de Aveiro, e que era campeão nacional de todos os concursos de amadores, e que nunca faltava aos concursos de Rio Maior porque achava que eram de facto os mais bem organizados. Eu acho que eram sobretudo organizados com a maior confraternidade, digamos assim.

 

Mas, perguntar-se-á, no fundo o que é que isto tem a ver com o Riomaiorense? Tem, porque foi esta onda destes homens bons que permitiu alimentar durante muito tempo o Riomaiorense.

 

Fui para Lisboa com treze anos, e devo dizer que nunca tive outra colaboração com o Riomaiorense que não fosse de facto fazer as cintas dos exemplares que eram remetidos para os assinantes. Mas acabei por ter uma colaboração indirecta, e curiosa. Estava eu no sétimo ano do Liceu. Não sei se se recordam que o Diário de Lisboa tinha uma vez por semana um suplemento que era o Diário de Lisboa Juvenil. E eu, um dia deu-me uma coisa qualquer na cabeça e escrevi um conto, e mandei-o para o Diário de Lisboa Juvenil. E, curiosamente, ainda que muito suavemente, relacionado com as nossas minas de lignite. O conto chamava-se "A vagoneta". E a vagoneta a que eu me referia era a vagoneta daqui, das minas. Foi publicado no Diário de Lisboa, na última página do suplemento. Eu fiquei todo contente, muito bem, apesar de me terem trocado o nome, mas isso não tem importância nenhuma. Em vez de Laureano saiu Loureano, ainda me recordo disso. E qual não é a minha surpresa quando, uns dias depois, não muitos, vejo no Riomaiorense, por iniciativa daquele homem que era o Director, o Armando Pulquério, reproduzido o mesmo conto na sua totalidade, sob o título "Primícias Literárias". Ainda hoje estou comovido. Ainda hoje estou muito contente por isso ter acontecido, porque finalmente tinha colaborado no Riomaiorense, sem ser a pregar as cintas.

(Continua na página seguinte)

Luís Laureano Santos durante a sessão comemorativa dos 125 Anos do Jornal O Riomaiorense. © Fotografia gentilmente cedida pelo jornal Região de Rio Maior.

"...o Riomaiorense desse tempo (...) foi alimentado por um grupo de riomaiorenses, um grupo notável, uma geração notável cujo último representante, se assim posso chamar, nos deixou há pouco, foi o Professor António Feliciano. "

Luís Laureano Santos

 

"Eu na altura não me apercebi disso. Achei que era a coisa mais natural do mundo ter numa vila como Rio Maior teatro, cinema, até cursos de cinema, até concursos de filmes de amador que decorriam aqui em Rio Maior e que eram reconhecidos, digamos, no país inteiro. "    

 

 

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