125 Anos do Jornal O Riomaiorense . Sessão Comemorativa (8)

                                                    

 

 

                                     

 

 

MESA REDONDA: PASSADO, PRESENTE E FUTURO DA IMPRENSA REGIONAL . DEBATE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

António Moreira: Eu gostaria de não estragar nada do que aqui foi dito, e portanto irei reduzir ao mínimo a minha intervenção, porque o silêncio é mais prudente do que a palavra. Quando a gente fala, arrisca-se muito. Mas eu acho que vale a pena aproveitar esta ilustre mesa para questionar sobre algumas coisas que tenham a ver... para já não queria deixar de pôr o desafio e ouvir os nove landmarks da imprensa regional, porque acho que é um desafio interessante... mas gostava de fazer, exactamente, cruzar aqui duas coisas que foram faladas e que têm a ver com a duração do tempo de informação dos telejornais, por exemplo, em Portugal, e a necessidade, de facto, de informar, e, a questão das redes sociais.   

 

De facto, o que existe hoje, e como é que nós, nós cidadãos, não como profissionais, nós cidadãos devemos ser educados para lidar com as redes sociais, e que tipo de intervenção podem os jornais, para além de se queixarem de uma concorrência desleal das redes sociais, podem fazer para irem alertando e educando as pessoas para o consumo da informação.

 

O que é que de facto nós temos de mudar enquanto responsabilidade individual para evitarmos o consumo de "produtos tóxicos"?

Adelino Gomes: Isto não é bem para o jornalismo local. É uma linha geral que depois se declina nas várias possibilidades.

 

Mas, já agora, antes, eu acho que nós vivemos a tempestade perfeita, e aqui quem é que tem a culpa, quem é que não tem? Quais são as saídas? Ninguém tem receitas. Por exemplo, os jornalistas gostam de se esquecer das suas responsabilidades, mas na verdade tudo mostra... há estudos... a Gallup começou a fazer, há uns vinte anos, estudos sobre a credibilidade das instituições. E, o último estudo que me chamou a atenção foi há dez anos, e agora há um recente, com dois ou três anos. Esse de há dez anos mostrava que o jornalismo era a terceira instituição que mais credibilidade tinha perdido. E depois as outras eram o Estado e as Religiões. O mais recente mostra que é o jornalismo aquele que mais se descredibilizou. E portanto, enquanto os jornalistas também, a profissão, não assumir ou não tomar consciência disso, é evidente que não pode atirar as culpas apenas para os outros ou para as novas tecnologias.

 

É como os ludistas, no século XIX. Vinha aí uma nova sociedade, a sociedade industrial, e os operários encontraram a forma de lutar contra a chegada de novos instrumentos, que era partir os instrumentos que chegavam. Evidentemente que estava votado ao fracasso.

 

Eu gosto muito de citar uma ideia que foi repegada por um filósofo francês e que tem a ver com um daqueles diálogos de Platão em que aparece Sócrates a dizer coisas que têm a ver com a invenção da escrita. Um desses diálogos é o do Fedro. E então, a certa altura, aparece o Rei Toth, o inventor da escrita, uma forma extraordinária em que já não precisamos de memória, pois agora escreve-se e escusamos de ter tudo na cabeça.

 

E Sócrates disse: - Oh! mas isso é uma tragédia. As pessoas assim, ao perderem a memória vão ficar sujeitas a um instrumento que lhes retira toda a capacidade de raciocinar.

 

[O filósofo] Derrida escreveu sobre isso "A Farmácia de Platão", em que diz uma coisa que acho muito interessante e muito simples: se mal tomado, o medicamento, que é destinado a salvar-nos, pode matar-nos.

 

Então, nesse sentido, é tão errado, e tão absurdo, e tão curto, nós pensarmos que as novas tecnologias aplicadas ao jornalismo estão a matar o jornalismo, como pensar que nas novas tecnologias está a salvação do jornalismo, se não entendermos, se não fizermos o diagnóstico dos males do jornalismo.

 

Julgo que o primeiro problema é esse. Mas logo a seguir há outros. Eu entrei no jornalismo em 1967, no Rádio Clube Português e depois fiz um curso no Diário Popular... Nesse tempo, havia tipos que escreviam ainda à mão, só depois é que se começaram a utilizar os gravadores. Nós na Rádio Universidade tínhamos um técnico que nos levava o gravador, que pesava para aí dez quilos, não é? Um Ampex. Lembras-te disso?

Luís Laureano Santos: Muito bem!

Adelino Gomes: Um Ampex. O tipo é que sabia mexer naquilo!

Luís Laureano Santos: Fui eu que o comprei.

Adelino Gomes: Tu compraste-o. Estás a ver. Eu aprendi num Ampex comprado pelo Dr. Luís Laureano Santos.

Luís Laureano Santos: Para a Rádio Universidade.

Adelino Gomes: Para a Rádio Universidade. Bom, então, é esse tempo todo. Quer dizer, houve uma adaptação. Aqueles que tiveram êxito, que vingaram, os melhores meios de comunicação, foram aqueles que souberam aplicar as novas tecnologias, aplicar melhor potenciando as capacidades e minorando - não é minimizando, é minorando - os problemas das novas tecnologias também.

 

Hoje há mais dois problemas gravíssimos. Um, por exemplo, é a questão da velocidade.

(Continua na página seguinte)

Manuela Goucha Soares, António Moreira, Luís Laureano Santos e Adelino Gomes durante a Sessão Comemorativa. © Fotografia gentilmente cedida pelo jornal Região de Rio Maior.

"(...) é tão errado, e tão absurdo, e tão curto, nós pensarmos que as novas tecnologias aplicadas ao jornalismo estão a matar o jornalismo, como pensar que nas novas tecnologias está a salvação do jornalismo, se não entendermos, se não fizermos o diagnóstico dos males do jornalismo. "           Adelino Gomes

 

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