[Arquivo do Riomaiorense) A Rua Direita em 1900 (1)

 

Fernando Casimiro Pereira da Silva (1910-1987), foi um distinto colaborador do jornal O Riomaiorense, iniciando em 1962 uma página dedicada à história local, sob o título: "Arquivo Histórico do Concelho de Rio Maior". No terceiro número desta secção histórica do jornal, Fernando Casimiro publicou uma carta inédita, escrita em 1900, na qual o autor, não identificado, nos apresenta uma descrição da antiga Rua Direita, actual Rua Serpa Pinto, dos seus estabelecimentos comerciais e dos homens e mulheres que então lhe davam vida.

Neste número da 11.a Série de O Riomaiorense, dedicado ao centro histórico de Rio Maior, recuperamos a carta publicada por Fernando Casimiro.

 

 

PASSEANDO PELA RUA DIREITA

In O Riomaiorense (3.a Série), n.o 250. Rio Maior, 24 de Fevereiro de 1962, pág. 7.

Meu caro Amigo,

 

Depois de uma viagem demorada e bastante cansativa aqui me encontro nesta sua tão amada Terra.

É realmente uma vilazinha simpática, que me tem agradado bastante.

 

Como me recomendou hospedei-me na Pensão do Manuel Quintino, em frente de um chafariz muito frequentado. Estive a conversar com um cocheiro que é empregado da pensão, chamado Salvador, que conhece o meu amigo.

 

Estou satisfeito com o tratamento, apesar de já me terem informado de que há uma outra pensão, pertencente a uma D. Juliana, que tem segundo dizem, uma sobrinha muito simpática, e de me terem gabado os pitéus da Maria das Dores, casa de comidas muito afamada.

Já percorri a parte mais central, ou seja quase toda a vila, mas como lhe prometi, vou dar notícias da “sua” Rua Direita, a que está sentimentalmente mais ligado por aí ter vivido, e que é, realmente, a mais importante e movimentada, principalmente nos domingos em que há mercado.

 

Como sei que já aqui não vem há alguns anos vou transmitir-lhe o que consegui saber dessa rua.

 

Partindo da frente dos Paços do Concelho, do lado direito dessa rua, visitei um estabelecimento de fazendas de que é proprietário o Sr. Rodrigo Soveral, cuja esposa, a Sra. D. Virgínia, senhora muito agradável e conversadora, me atendeu muito amavelmente, apesar de nada lhe desejar comprar.

 

Quase em frente mas um pouco adiante, existe um importante estabelecimento misto, propriedade do Sr. Rafael José da Costa, pessoa importante cá da terra, em várias ocasiões Presidente da Câmara e Administrador do Concelho, o qual também é depositário dos tabacos, agente bancário e tem carros de aluguer.

 

À porta desse estabelecimento meti conversa com um marçano, bastante falador, chamado António Dias de Azevedo, cuja maior ambição parece que é ter um desses esquisitos meios de transporte a que uns chamam velocípede e outros bicicleta.

 

Mas voltando à “sua rua” vou tentar indicar-lhe todos os estabelecimentos que encontrei do lado direito.

 

Depois do estabelecimento já referido do Sr. Rodrigo Soveral, no quarteirão seguinte reside um dos médicos locais, o Dr. Felisberto, e só lá mais adiante é que encontrei uma taberna de um tal José Coelho, uma oficina de alfaiate de Firmino Lúcio Franco e o estabelecimento de fazendas da Sr.a D. Margarida Ferreira, mãe do seu amigo João Paulo Ferreira.

A seguir, como sabe, é a praça, calcetada, com um chafariz de duas bicas ao centro, na qual só se vende peixe, pois as poucas hortaliças e frutas que aparecem à venda estão à porta dos estabelecimentos.

 

Depois da praça, e com uma frente para a mesma, está o estabelecimento de fazendas do Sr. Francisco Henriques e lá um pouco mais abaixo, à esquina, a oficina de latoeiro do Carvalhito, que há pouco, tomou conta da oficina do Joaquim Pereira, pai do João Pereira, mais conhecido pelo “Lambordas”, também latoeiro.

 

E do lado direito da Rua Direita nada mais e parece existir, comercialmente falando.

Depois de ter atravessado um largo, que me disseram chamar-se do “Espírito Santo”, no qual existe, também à direita, uma casa onde parece ter descansado D. Miguel, em seguida à derrota de Almoster, visitei a igreja.

 

Não é um templo que se possa classificar de famoso. Encontra-se em mau estado de conservação, tendo-me sido dito que está a ser elaborado um projecto para o reparar e modificar.

 

Dos lados, à altura do coro, tem uma espécie de camarotes, a que dão o nome de “coretos”.

Confesso que nunca vi em nenhuma igreja nada parecido com os tais “coretos”.

(Continua na página seguinte)

Figura 1 - A Rua Direita nos anos trinta.

© Colecção António Feliciano Júnior. Arquivo do jornal O Riomaiorense.

Figura 2 - A Praça do Comércio nos anos dez. Bilhete Postal Ilustrado. © Colecção António Feliciano Júnior. Arquivo do jornal O Riomaiorense.

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