Corrida às Minas. A intensificação da extracção nacional pela difícil importação (1)

 

 

                                        Por Micaela Santos

                                                Museu Mineiro de S. Pedro da Cova

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“O carvão é uma substância de primeira necessidade que nos faz tributários da Grã-Bretanha. O carvão compreende em si tudo quanto existente no mundo orgânico e boa parte do que é inorgânico, e além disso é um elemento insubstituível de toda a indústria aperfeiçoada” – Conde de Samodães, Relatório da Exposição Industrial de 1891, Palácio de Cristal.

 

Por volta do século X, Inglaterra conhece a utilidade do carvão como combustível. Embora a sua utilização se tenha espalhado pela Europa durante os séculos seguintes, é apenas no século XVIII que passa a ser utilizado como fonte energética, substituindo a lenha, principal fonte de energia utilizada até então pelo homem. A intensificação do seu uso proporcionou o desenvolvimento industrial, tornando-se essencial durante a Primeira Revolução Industrial, iniciada em Inglaterra.

 

Assim, com o aparecimento da máquina a vapor que depende do carvão mineral para produzir energia motriz, o carvão desperta interesse industrial, mas também económico. Em Portugal, com uma industrialização tardia, é apenas em finais do século XIX que a indústria mineira começa a merecer atenção por parte do Governo.

 

Pese embora a descoberta de carvão mineral em São Pedro da Cova - povoação que vivia essencialmente da moagem de cereais, realizada em casas de moinhos construídas ao longo do Rio Ferreira, importante também na actividade agrícola que se desenvolvia nos campos envolventes – date dos finais do século XVIII, apenas com o desenvolvimento industrial e a chegada do século XX é que a produção começa a registar valores significativos.

 

Se inicialmente o Estado atribuiu a exploração mineira de São Pedro da Cova a privados, em 1801, volta a assumir a exploração. Uma vez que os resultados alcançados não foram os esperados, o Estado resolve arrendar as Minas de Carvão de São Pedro da Cova por um período de 20 anos. Este é o motivo pelo qual as Minas de São Pedro da Cova são as únicas que se mantiveram a laborar nos primeiros 30 anos do século XIX. Durante este século, embora reconhecidas como economicamente mais importantes, os seus resultados não se equiparam àqueles registados na 1ª., mas principalmente, 2ª. Guerra Mundial.

 

De entre as explorações mineiras de carvão nacionais destacavam-se as dos carvões (antracite) da Bacia Carbonífera do Douro, com dois principais pontos de exploração: Mina de São Pedro da Cova, que até finais da década de 40 do século XX se assumia como a maior produtora de carvão nacional. A esta seguia-se a Mina do Pejão. A partir da década de 50 a Mina de São Pedro da Cova enfrenta dificuldades, encerrando definitivamente em 1972, enquanto a Mina do Pejão se coloca em melhor posição, encerrando mais tarde, no ano de1994.

 

“O bom carvão de S. Pedro da Cova é negro, brilhante, de reflexo bronzeado, pesado, compacto, (...) duro e seco; arde com chama curta azulada, e desenvolve um cheiro fraco de acido sulfuroso, devido a uma pequena quantidade de pyrite que contém interposta (...) e é portanto um carvão mui secco, quasi privado de materiaes voláteis” (1)

 

O carvão surge na Europa como combustível, substituindo assim a lenha, possuidora de um potencial energético baixo e evitando a crescente desflorestação. Torna-se assim o combustível utilizado pela indústria, pelos transportes (barcos e locomotivas a vapor) e na produção de energia termoeléctrica.

 

Portugal desde sempre consumiu carvão importando oriundo sobretudo de Inglaterra. Os aparelhos de queima de carvão, a boa qualidade e o preço sempre mais reduzido do carvão importando atraia a indústria que desconsiderava o carvão nacional. A credibilidade do carvão de São Pedro da Cova foi crescendo no mercado devido à sua qualidade, mas principalmente devido à sua antiguidade e proximidade com a cidade do Porto.

 

O destino do carvão explorado em São Pedro da Cova, no início da sua exploração, era o consumo doméstico da cidade do Porto, cuja grande dificuldade era o transporte – eram os carreteiros que com os carros de bois transportavam o carvão até à cidade, o que inflacionava o seu preço: “… 1 tonelada de carvão paga menos vindo de Cardif ao Porto do que vindo de São Pedro da Cova ao Porto.” (2)

 

Aos poucos este carvão entra no meio industrial, atraindo consumidores de peso, como são exemplo: Companhia de Carris de Ferro do Porto (CCFP), CP, Central do Freixo, e diversas fábricas têxteis. Em 1900, a produção anual era calculada em 6 000 toneladas. Em 1914 atingiu as 25 mil e em 1932 foram extraídas de São Pedro da Cova 183 289 toneladas de antracite em bruto. Os sucessivos aumentos de produção corresponderiam a uma evolução de procura do produto, tornando-o uma componente energética indispensável ao desenvolvimento das indústrias, dos transportes e das próprias condições de vida na região do Porto.

 

No entanto, os factores decisivos para que o carvão nacional ganhe terreno ao carvão estrangeiro, transformando-se num produto de referência, foram os mais importantes acontecimentos da nossa história. Exemplo disto é o Ultimato Inglês, ainda em finais do século XIX, mais por questões nacionalistas do que económicas, sentindo-se a vontade dos consumidores na opção pelo carvão nacional em detrimento do importado de Inglaterra.

 

Contudo, a 1.ª e 2.ª grandes guerras alteraram definitivamente este panorama. A produção de carvão na Mina de São Pedro da Cova registava na primeira década do século XX cerca de 6 000 toneladas anuais de cavão. O primeiro pico de produção é atingido no ano de 1917, em plena 1.ª Guerra Mundial, com o registo de 170 000 toneladas anuais. Este registo deve-se muito aos bloqueios marítimos que impediam a chegada de carvão inglês aos portos nacionais, mas também devido aos investimentos efectuados nos processos de tratamento, separação e expedição de carvão.

 

 

Figura 1 - Complexo Mineiro de São Pedro da Cova, Vista dos Escritórios, 1940.

© Museu Mineiro de São Pedro da Cova.

(1)

ALMEIDA, João António de; Exposição resumida das qualidades, e prestimo do carvão de pedra das Minas de S. Pedro da Cova e Buarcos e da maneira mais facil e economica de o empregar...; Lisboa : Impr. Regia; 1826

Figura 2 - Antracite das Minas de São Pedro da Cova. © Museu Mineiro de São Pedro da Cova.

(2)

RIBEIRO, Carlos; Memória sobre a Mina de Carvão de Pedra do Cabo Montego; Boletim das bras Públicas Comercio e Industria. Vol. I; 1857

Figura 3 - Carreteiros. © Museu Mineiro de São Pedro da Cova.

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