(Editorial) 125 Anos do jornal O Riomaiorense (1)

 

 

 

 

 

 

 

Rio Maior, povoação antiga, com existência documentada desde os primeiros anos da nacionalidade, tem contudo uma memória histórica recente. Escassos monumentos atestam esse longo passado. Será sobretudo a partir do século XIX, após a criação do Município por Decreto Régio de 6 de Novembro de 1836, que se consolidam as estruturas cívicas de um espaço público partilhado pela comunidade.

 

A formação de uma nova consciência cívica dá lugar nas últimas décadas de oitocentos à criação de organizações associativas e de estabelecimentos de ensino que terão um papel preponderante na promoção da participação dos cidadãos neste novo espaço público. Destacam-se a criação do Grémio de Instrução e Recreio Riomaiorense em 1869, mais tarde Assembleia Riomaiorense, que constrói o Teatro Riomaiorense, inaugurado em 1880, a instalação da escola primária de Rio Maior em 1876, que terá edifício próprio inaugurado em 1878, a instalação de uma escola municipal secundária, em 1886, e a fundação da Associação dos Bombeiros Voluntários de Rio Maior em 1892.

 

É no seio deste novo contexto sociocultural que surge, no final do século, a imprensa local, fundada com a publicação do primeiro número do jornal O Riomaiorense, a 2 de Julho de 1893, por Manoel José Ferreira, professor do ensino primário, natural do distrito de Leiria, residente em Rio Maior desde 1876, onde viera fundar a escola primária.

 

Iniciava-se nesse momento um repositório da vida quotidiana do concelho de Rio Maior, através da palavra escrita - um arquivo da história local que se prolonga há cento e vinte cinco anos, com onze séries intercaladas por períodos mais ou menos longos de silêncio.

 

O Riomaiorense acompanhou, desde a sua fundação, uma era de profundas transformações políticas e sociais do Portugal contemporâneo. Se o país mudou, o jornal foi sendo também outro, diverso, reflectindo as personalidades e os tempos que lhe deram vida. Na evidente diversidade de opções ideológicas, um fio condutor atravessou intacto a sucessão das séries publicadas: a dedicação a uma causa comum: Rio Maior.

 

Perante os diferentes regimes o jornal soube sempre adaptar-se a novos tempos e a novas circunstâncias sem perder a independência e a combatividade. As cinco primeiras séries, em particular, revelam-nos as transformações operadas na comunidade por quatro modelos de organização política e social: Monarquia Constitucional, I República, Estado Novo e Democracia.

 

O nosso jornal acompanhou o desenvolvimento urbano da vila, mais tarde cidade, e das freguesias, noticiando, apresentando propostas, promovendo campanhas e constituindo um fórum de debate sobre as opções do Município. Desde as propostas não concretizadas do final da monarquia, à criação de espaços públicos qualificados pela República, passando pelo plano de urbanização e vasto programa de obras públicas construídas pelo Estado Novo, atravessando o desregramento da especulação imobiliária do pós 25 de Abril, e terminando num novo programa qualificado de obras públicas em Democracia na transição para o século XXI.

 

O estudo deste processo evolutivo tem nas páginas do Riomaiorense um detalhado registo dos problemas com que se confrontaram as sucessivas gerações, permitindo-nos conhecer as diferentes propostas de planeamento, debates e grau de concretização, bem como acompanhar a execução das mais importantes obras, que, em 125 anos, transformaram profundamente as condições de vida dos cidadãos.

 

Teve um lugar de destaque, entre as preocupações dos diferentes directores, o desenvolvimento económico e social do concelho, reflectindo-se nas lutas empreendidas pelo jornal, em diferentes épocas, para a realização de investimentos públicos, como, entre outros, a projectada via-férrea Setil-Peniche, nunca construída na totalidade. O Riomaiorense acompanhou com entusiasmo o desenvolvimento industrial do período mineiro e mais tarde a fixação de indústrias na década de sessenta, noticiando projectos e empreendimentos, mas também denunciando as más condições laborais dos operários e os impactos ambientais da indústria.

 

(continua na página seguinte)

 

Figura 1 - "Notícias Frescas". Fotografia de António Feliciano Júnior, década de 50. © Colecção António Feliciano Júnior. Arquivo O Riomaiorense.

Director e Proprietário: Nuno Alexandre Dias Rocha, 2015-2018. © Todos os direitos reservados.                                                                                             Distribuição gratuita

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