Em cada cliente, um amigo

                                                    

 

 

                                         Por Manuela Fialho

                                              Presidente da Mesa da Assembleia-Geral da EICEL1920

 

 

Quando, em 1954, então ainda menino, Gonçalo Fialho rumou de casa dos seus pais, em Arrouquelas, Rio Maior, para o Cartaxo ao encontro do seu primeiro emprego não imaginaria que ali viria a estabelecer a sua primeira morada de família e que estava a dar os primeiros passos para uma vida dedicada ao comércio.

 

Nascido em 24 de Novembro de 1943, tinha onze anos quando atendeu o seu primeiro freguês no estabelecimento de bebidas O Escondidinho ou Taberna do Meia Orelha.

​Completara com distinção a 4ª classe, revelando-se especialmente apto na aritmética.

 

Seus pais, Maria Adelaide e Francisco Fialho, tinham por ele especial apreço, mas as agruras da vida não permitiam que deixassem escapar a oportunidade de conseguir uma atividade fora da dureza dos campos.

 

No Cartaxo, a vida, embora muito difícil nos primeiros tempos, mudaria quando foi chamado a mudar de emprego e ingressou na Pensão Paulino, sita no centro da vila.

 

Desde sempre enamorado daquela que viria a ser a sua mulher para a vida – Clarisse Maria Tavares Bento -, ainda mal tinha completado 18 anos quando casou, vindo a ser pai aos 19.

 

Aprendidas as artes do ofício, surgiu a oportunidade de se estabelecer por conta própria, o que levou o jovem casal, a abraçar um projeto conjunto, na área da restauração, agora em Alhandra, local onde exploraram dois estabelecimentos.

 

E, não fossem as necessidades da guerra do Ultramar, certamente por ali continuaria.

 

O destino não quis que assim acontecesse e, não obstante ser um jovem pai, não escapou à chamada para o serviço militar e para o Ultramar, assim se interrompendo o sonho de uma vida recentemente iniciada.

Após uma viagem de quinze dias no navio Infante D. Henrique, aporta a Lourenço Marques no dia 11/05/1966, vindo a ser deslocado para a Beira no dia seguinte, local de onde sairia para o norte de Moçambique (Vila Cabral, Nova Coimbra e Lunho) em Julho do ano seguinte, ali permanecendo até Agosto de 1968.

Já então aprendera as artes de radio telegrafista e, aproveitando a estadia na cidade da Beira, aprofundara os estudos no Liceu Pero da Maia, recebendo em África um louvor pelos serviços prestados à Pátria.

Ainda hoje recordo o dia 4 de Setembro de 1968, dia em que, na camioneta que partia de Assentiz, me desloquei com a minha mãe e demais familiares a Lisboa para a chegada do Cabo Fialho e a alegria que foi, depois dos muitos aerogramas que o carteiro nos entregava em Arrouquelas, lugar para onde a família tivera que retornar, poder correr para os seus braços.

Regressado a Arrouquelas, com uma família para sustentar, não houve tempo para tréguas.

Valeu-lhe a amizade criada, através da correspondência, com a sua madrinha de guerra, D. Aurora Carreira, e seu marido Júlio Carreira, que o encaminharam para o estabelecimento comercial que o viria a fixar em Rio Maior.

É assim que, ainda em Outubro de 1968, Gonçalo consegue emprego na Casa Goucha, em Rio Maior, aí vindo a aprender os segredos do comércio de vestuário.

Jovem, dinâmico e interessado, não levou tempo a fazer-se notar, acabando por se tornar a alma daquela casa, lugar onde se manteria até Fevereiro de 1983, depois de em 1971 ter vindo a ser titular de uma participação na sociedade Alberto Ferreira Goucha, Lda.

Ambicioso, e almejando para a sua família que, entretanto aumentara com o nascimento de mais dois filhos, uma vida diferente daquela que lhe tinha sido proporcionada, sentindo que as suas capacidades o poderiam levar mais longe, abre, com a sua esposa, o estabelecimento de pronto a vestir masculino que ainda hoje mantém – Gonçalus Moda -, propriedade de Gonçalo Fialho, Lda..

Em 1989 tenta uma experiência no ramo do calçado, com a casa que deu pelo nome de Bento´s Sapataria, propriedade da empresa Bento & Fialho, Lda, experiência que não viria a dar os almejados frutos e que levou à abertura da loja SÓBARATO, também tendo por objeto o comércio de vestuário de homem.

50 anos volvidos, a Rua Serpa Pinto, na qual vinha exercendo a sua prática desde que instalado em Rio Maior, prestou-lhe homenagem num almoço confraternização espontaneamente organizado e que reuniu cerca de setenta pessoas. Foi o comovente reconhecimento, por parte das gentes do comércio, da sua dedicação ao centro histórico e do seu contributo para o desenvolvimento e manutenção da vivacidade daquela rua. O homem que em cada cliente tem um amigo e que sempre manteve com a concorrência relações de cordialidade, guardando para os adversários políticos um sorriso franco, expressou, então, que “Valeu a pena, tudo valeu a pena”!

Ato contínuo, também a Câmara Municipal de Rio Maior, de quem já tinha recebido uma distinção em 6/11/2006, resolveu agraciá-lo com a medalha de honra do município.

E a Associação Empresarial e Comercial do Concelho de Rio Maior, na qual desde cedo participou ativamente, incluindo como dirigente, reconheceu-lhe, em 13/01/2007 o empenho e dedicação demonstrados nas atividades da mesma, vindo, em 2018, a atribuir-lhe mais um louvor por mérito empresarial, mérito também reconhecido por esta instituição quando completara 25 anos de atividade em Rio Maior.

A par com a sua dedicação ao comércio, a política teve nele um cidadão empenhado.

 

Militante do Partido Socialista desde cedo, foi por várias vezes candidato nas eleições locais, sempre em lugares não elegíveis, destacando-se, porém, no seu empenho no âmbito da comissão política concelhia do partido, onde nunca abdicou de ter uma voz, por vezes dissonante.

 

A política cedo se instalara, aliás, na sua vida. Ainda durante a longa noite fascista participou de grupos conspirativos, vindo, logo que se deu a Revolução de Abril a formar, em Arrouquelas o CUPA – Colaboração, Unidade e Progresso de Arrouquelas.

 

Para além da dedicação ao Partido Socialista, de que continua um indefetível, o Sporting Clube de Portugal é, desde sempre, o clube do seu coração. E, logo que fundado o Núcleo Sportinguista de Rio Maior, ali se empenhou, integrando os respetivos órgãos sociais durante vários mandatos.

 

Este é o retrato de Gonçalo Fialho, agora com 75 anos de idade, mas ainda cheio de vigor para, diariamente, se deslocar para a sua loja, menina dos seus olhos…

 

E para, caso a consciência o chame, sair do conforto de sua casa e integrar alguma manifestação de cariz político, sempre de punho erguido, dando o peito à luta pelo que considera ser justo!

 

Manuela Fialho

 

Figura 1 - Gonçalo Fialho, na Casa Goucha, Anos 70. © Fotografia Rodrigues, Colecção Manuela Bento Fialho.

"O homem que em cada cliente tem um amigo e que sempre manteve com a concorrência relações de cordialidade, guardando para os adversários políticos um sorriso franco, expressou, então, que “Valeu a pena, tudo valeu a pena”!."

 

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