(Entrevista) MINEIROS. Um Retrato Social (2)

 

 



O Riomaiorense:  Como recordam a importância da actividade mineira na vila de Rio Maior, na época em que fixaram residência no concelho?

 

 

 

João Severino: Foi um desenvolvimento para Rio Maior, uma coisa extraordinária. Vieram para aqui, talvez, umas duzentas ou trezentas pessoas que deram um movimento a Rio Maior que foi uma coisa enorme. Caíram aqui milhares de contos, e ficaram todos cá em Rio Maior.

 

Manuel Palminha: Rio Maior era uma aldeiazinha pequenina.

 

Marcelino Machado: Os mineiros é que trouxeram o desenvolvimento a Rio Maior.

 

José Gomes: Havia muita taberna, muita, e cada uma tinha o prazer de ter um belo vinho. E então, no tempo da mina, não havia taberna nenhuma que não estivesse cheia. Peixe frito, pão e vinho. Porque o pessoal também podia alargar-se um bocadinho. Trabalhava-se de empreitada e ganhava-se qualquer coisa, e ao sair da mina tínhamos que tratar do bucho, beber uns copos, e era sempre uma alegria. Via-se mais pessoal que agora.

 

Alcino Marques: E a malta alentejana a cantar à alentejana. A cantar até às tantas!

 

Marcelino Machado: Até houve riomaiorenses que aprenderam a cantar alentejano.

 

João Severino: Foi uma grande evolução para Rio Maior.

 

José Gomes: E foi pena ter acabado.

 

João Severino: Rio Maior era igual a qualquer outra terra. Não era só Rio Maior que era uma vila pequena. Mas está claro, Rio Maior teve a sorte de ter aqui a mina. Caíram aqui milhões. Isto era uma mina do Estado. O Estado é que financiava isto. O Estado precisava desta empresa e desta mina porque havia a central de Lisboa, em Alcântara, que trabalhava com carvão. E o carvão que vinha do estrangeiro ficava muito caro. Praticamente cem por cento do carvão ia para lá, para a central de Alcântara, que hoje é o museu da electricidade.

 

Marcelino Machado: A Central Tejo.

 

Miguel da Palma: Ia também para Pataias.

 

José Gomes: E ia para a fábrica de cimento de Setúbal.

 

João Severino: Depois, quando começou a fábrica de briquetes é que começou a ir carvão para a fábrica de cimento, para Setúbal, para Pataias.

 

 

 

 

O Riomaiorense: Que memórias guardam da integração da família em Rio Maior e da convivência dos riomaiorenses com os mineiros?

 

 

 

João Severino: Bem, as relações com os mineiros, de facto, temos de dizer a verdade, que havia um certo divisionismo. Havia! Quer queiram quer não. Eu tive boas relações, grandes amigos aí, de facto, tivemos. Mas a gente nota que havia aí... e ainda hoje os mais antigos quando falam dos mineiros ainda põem assim umas reticenciazinhas...

Havia quem dissesse que a gente vinha para aqui comer o pão deles. Diziam isso!

 

Alcino Marques: Era mais dos alentejanos que eles não gostavam.

 

João Severino: Havia aí muita briga! Muita briga mesmo! Olhe, aqui o irmão deste rapaz (Manuel Palminha), o Horácio, que era guarda-redes, levou uma tareia ali onde era a sede do Clube de Futebol “Os Mineiros”. No outro dia, o meu pai... foram lá acima, esperaram-no e deram-lhe uma sova, sem mais nem menos!

Havia aí uma certa rivalidade. Depois é que isto foi passando.

Os mineiros tinham uma equipa de futebol formidável. Ia lá alguém daqui de Rio Maior ver a bola? Iam três pessoas. Ia o doutor Calisto, que era o pai do Chico Calisto, iam os Fialhos, o professor Andrade, que era Presidente da Assembleia Geral do Clube de Futebol “Os Mineiros”, e pouco mais gente lá ia.

O campo da bola foi feito pelos mineiros. Saíamos do trabalho e agarrávamo-nos ali a fazer o campo da bola. Não ia lá mais ninguém ver a bola.

Depois é que se começaram a habituar, a pouco e pouco. Isto é a realidade! É verdade!

 

José Gomes: Para o fim a equipa dos mineiros já era mais sem mineiros que com mineiros.

 

Miguel da Palma: Chegou à segunda divisão.

 

João Severino: Uma prova: acabou o Clube de Futebol “Os Mineiros” e foi mudado para União Desportiva de Rio Maior. Podiam ter ido buscar as raízes do Clube de Futebol “Os Mineiros”. Até os equipamentos... era um equipamento bonito: uma camisola branca com uma golazinha azul, calçãozinho azul. O equipamento era muito giro. Mudaram tudo! Nem é Clube de Futebol “Os Mineiros” nem absolutamente nada.

Havia uma certa indiferença...

Hoje está tudo bem, mas ao princípio houve grandes problemas. Houve sim senhor.

 

 

 

 

O Riomaiorense:  Como descrevem as condições de habitação que encontraram em Rio Maior?

 

 

 

José Gomes: Não tinham nada, essas barracas onde eles, coitados, viveram no princípio.

 

João Severino: Nem toda a gente viveu em barracas.

 

José Gomes: Está bem. Eu estou a dizer que os que viviam em barracas não tinham condições nenhumas. Ou tinham? Não tinham condições nenhumas! Não tinham nada. Nem casa de banho nem nada.

Vivi muito tempo sem electricidade porque a gente em Vale de Óbidos não tinha electricidade. Só quando veio para lá é que começámos a ter electricidade. Mas casa de banho tive sempre. Não tinha dinheiro para comer às vezes, mas higiene em casa tive sempre.

 

Alcino Marques: Eu morava, na altura, no Casal do Barrela. Primeiro fui morar para a Azinheira, numa casa improvisada. De lá é que saímos para o bairro do Barrela, onde está hoje o Continente. Fez-se ali um bairro.

A água ia-se buscar ao jardim, que havia ali uma bica da câmara. As mulheres levavam uma coisa à cabeça e iam à água. Não havia água canalizada, nem luz... Só tínhamos fartura era de carvão...

Se a casa fosse forrada morríamos lá intoxicados. O que é que aquilo era só telha solta e as paredes da casa só chegavam até à altura da cabeça. Os quartos... eram dois quartitos que não tinham portas. E então a queima do carvão deitava um gás fantástico... matava a gente lá dentro!

 

João Severino: Eu fui morar para a Freiria. Ainda existe lá a casa para onde eu vim morar. Eram dois casais para a mesma casa. Eram três quartos, uma sala, uma cozinha, ainda tinha uma despensa e tinha um quintal. Não havia água canalizada. Só havia aqui meia dúzia de casas que tinham água canalizada nessa época. Não tinha electricidade. Só a partir de 1957 é que veio para aqui a SEOL. Só a partir de 1957-58 é que começou a haver aqui electricidade.

 

Manuel Palminha: Eu morei no bairro do Barrela também.

 

O Riomaiorense: Viveu no mesmo local que o Sr. Alcino.

 

Manuel Palminha: Sim. Mais aqui o Miguel. Estivemos lá a morar juntos.

 

Miguel da Palma: Eu vivi em cinco casas. No Casal do Abum, do Manuel Leonor, no António Pedro, ali no Rossio, ao pé do ti Espraguina, e estive aqui atrás do Daniel da Torre, no Largo dos Combatentes. Estive também no ti Graciano, no Bairro do Abum. Portanto, estive em seis lados.

 

Marcelino Machado: Tiveste seis moradias!

 

Miguel da Palma: Não tive nada... Não havia luz em lado nenhum. E ali no António Pedro era telha vã. Até via as cobras às vezes a andar em cima do telhado, nas traves.

 

Marcelino Machado: Eu vivia na Fonte da Bica. A minha casa de banho era uma vinha... a água era de um poço.

 

 

 

 

"Havia quem dissesse que a gente vinha para aqui comer o pão deles."

 

João Severino

"Não tinham nada, essas barracas onde eles, coitados, viveram no princípio."

 

José Gomes

"Os mineiros é que trouxeram o desenvolvimento a Rio Maior."

 

Marcelino Machado

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