Lembrando o Teatro em Rio Maior

 

 

                                         Por Maria Júlia Faria e Silva Antunes Figueiredo

                                         Membro do Conselho Consultivo da EICEL1920

 

 

 

 

Então, Rio Maior ainda era vila a que não faltava ânsia de afirmação nas várias áreas  e actividades em que a população se empenhava. Tinha  na memória o  conhecimento do seu passado estratégico que atraíra povos que haviam de deixar testemunho.

De facto, uma terra é a história e as tradições do povo que a fazem.

 

População tradicionalmente rural, ainda com alguns arremedos de indústria, não desfazia tais componentes da sua identidade. À abertura de ruas e calçadas, o comércio correspondia a novos apelos chegados pelas notícias do que se passava fora dos seus limites.

 

Certamente,  as conversas fartas davam luz a gostos que nasciam e renasciam dessas.

 

A música tocava-se no coreto da Praça da República e, a essa, o teatro, tradição já conhecida, por sabidos espaços onde ali se representara. Na Rua da Runa, hoje Rua Mouzinho de Albuquerque e na Rua Serpa Pinto assistiu-se no Teatro Gymnasio a peças aplaudidas e representadas  por artistas locais.

 

Os amadores, porém, reclamavam novo e adequado teatro, como foi o Teatro Riomaiorense à Rua Cidade de Santarém, inaugurado em 15 de Março de 1880, resultado da pronta solidariedade dos riomaiorenses, onde não faltaram récitas, revistas e operetas em tributo à música de que lembram topónimos da hoje cidade, como Fernando Carvalho, e bandas de música de  memória ainda.

 

Rio Maior começava a ter lugar no cenário teatral; as companhias itinerantes Nunes, Muñoz e  Rafael d`Oliveira eram visita para época, algumas vezes, em parceria com os artistas locais. Enraizada tal paixão, seria em Fevereiro de 1941 que um grupo de jovens desempenhando todos os papéis - masculino e feminino - levou à cena a comédia "O Bicho Ramalho".

 

Era o GRUPO CÉNICO ZÉ P´REIRA a fazer jus ao seu patrono.

 

Desaparecidos já, os seus nomes serão sempre recordados pela coragem e desafios à sociedade que nunca lhes regateou aplausos, embora as críticas ditas, quer a personalidades locais, quer ao poder politico.

 

Heitor Couto, José Pulquério, António Carreira, José Correia, Feliciano Junior, João Costa, José Ramos de Deus, José Serrano e Júlio Carreira sob a direcção de Alves Coelho Filho, notável compositor fixado em Rio Maior, ensaiados depois também por Laureano Santos, Amarino Calisto e Joaquim Manuel Esteves, todos nossos conterrâneos, enchiam o salão dos Bombeiros e Casa do Povo nas dezenas de peças concebidas a propósito e de autor a favor dos Bombeiros, Sopa dos Pobres, Centro Escolar nº 4 da Mocidade Portuguesa, a que não faltavam os momentos musicais por Joaquim Dâmaso Dias e a bela voz de Maria Celeste Dias, como o foi no tema Marinhas, daquele excelente músico e poema de Amilcar Barbosa e o Fado do Mineiro de Laureano Santos e Alves Coelho para a peça “ E o Sonho foi  realidade”.

“Fruta do Tempo”, peça de crítica social da autoria de Georgette Goucha e “Belezas da nossa Terra” de Amilcar Barbosa consolidaram o prestígio e atitudes profissionais do grupo que não se negava a espectáculos fora e sempre com êxito.

 

Não faltavam artistas espontâneos que engrossavam o desejo de entrar em palco, revelar seus créditos e notar Rio Maior como terra de cultura. Teatro e música passaram a ser parceiras acarinhadas pela sua terra acompanhando-as nas suas saídas e sempre fazendo casa cheia nos espectáculos locais. Uns cabeça de cartaz, todos desempenhavam os papéis e cargos distribuídos sem ressentimentos pelo ganho de aplausos, se dividiam entre si trabalho e custos pelo gosto da alegria e orgulho oferecidos, faltando, embora, a disciplina e organização que a responsabilidade já exigia.

 

Ernesto Alves, também apaixonado por teatro, veio e fez crescer à maturidade a  competência do Grupo Cénico Zé P´reira.

 

“Os filhos do Policarpo”, “ O troca tintas”,” A bisbilhoteira”, “ O tio rico” foram alguns dos sucessos a engrandecer a fama do grupo riomaiorense, como embaixada artística, por mais de duas décadas.

 

A semente fora lançada,, Ernesto Alves havia de repousar e outros haviam de continuar.

 

Assim foi tempo fora. Havia de ser. A paixão pelo teatro não esmoreceu e chegou aos nossos dias, como sabemos e podemos confirmar, vendo, em dia de teatro no nosso Cine-Teatro.

 

Não ir ao teatro é como fazer a toilette sem espelho.”

Shoppenhauer

 

 

Maria Júlia Figueiredo

(escreve de acordo com a antiga ortografia)

 

Figura 1 - Antigo Teatro Riomaiorense, Anos 30. © Colecção António Feliciano Júnior. Arquivo do jornal O Riomaiorense.

Figura 2 - O Grupo Cénico Zé P'reira, Anos 50. 1.a fila (da esquerda) Romana Constantino, Cristina Couto, Ernesto Alves, Lurdes Feliciano e Antónia Constantino. 2.a fila (da esquerda) Siopa Filho, Deolinda Costa, Maria Arnalda e Henrique Fialho. 3.a fila (da esquerda) António Feliciano, Fernanda Cunha, Mariazinha, Quim Deus, Fernanda Coelho, Esmeralda Cunha e João Fróis.

© Reprodução de FIGUEIREDO, Maria Júlia - Para a História do Teatro em Rio Maior. Rio Maior: Edição da autora, 2016, pág. 59.

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