Manoel José Ferreira (1852-1913) . Pedagogo

 

 

                                         Por Augusto Tomaz Lopes

                                         Historiador

 

 

 

 

Manoel José Ferreira nasceu em Pousaflores, terra de foral manuelino, no concelho de Ansião, distrito de Leiria, a 16 de Julho de 1852. Os seus pais eram pessoas de fracos recursos, mas porque o rapaz era inteligente e trabalhador esforçaram-se por lhe dar estudos, numa época em que poucos iam à escola pois não existia a noção de que a educação conferia aptidões e conhecimentos para uma carreira de sucesso. O moço aproveitou – e bastante – e quando se fez homem tinha a certeza de ter abraçado, por vocação e acentuada preparação técnica, a profissão com que sonhara e à qual iria dedicar todo o seu entusiasmo.

Com 24 anos e o diploma de professor, dá a sua primeira aula a 1 de Fevereiro de 1876 na escola primária de Rio Maior, para onde fora nomeado. Nos 36 anos seguintes permanecerá na mesma escola e na sua terra adoptiva, exercendo fascínio entre a pequenada que teve o prazer de ser guiada pelo mestre, ganhando a admiração dos seus pares pela capacidade de trabalho e disponibilidade para a causa da instrução e educação, mas também incomodando: umas vezes a Câmara Municipal, outras a Administração Escolar Distrital e, quase sempre, a Direcção Geral de Instrução Primária com reivindicações de natureza profissional, pedagógica e corporativa.

O Jornal 'O Riomaiorense', que funda em 1893, e o 'Civilização Popular' que se lhe segue, acentuando a causa da instrução e do professorado, são a voz inconformada de um homem que tem consciência do atraso do país e da pobreza da região, e cujo maior valor é a sua gente, em particular a mais jovem. Na sua luta diária não dá tréguas aos métodos antiquados, preocupando-se em aplicar e difundir as metodologias activas e modernas, como o Método João de Deus. Porém, não se dispensa de utilizar nas suas aulas uma disciplina rígida, quase militar, impondo inovações como o uso de bibes, uniformes na cor e no feitio, e dessa forma atenuando a diferenciação social.

Manoel José Ferreira tem ainda tempo para se desdobrar noutras actividades: funda uma Tipografia em 1894, única na vila durante muitos anos; faz parte da comissão organizadora do 2.º Congresso do Professorado Primário, em 1897; funda o Centro Escolar que edita todo o género de impressos pedagógicos e utensílios escolares; funda, ainda, o Collegio Familiar, onde a sua mulher, também professora, lecciona aulas particulares a meninas; é autor de livros adoptados e do Almanaque do Professor Primário. São todas estas actividades que, em conjunto, o absorvem e gastam prematuramente.

Em Janeiro de 1911, no 19.º aniversário do jornal escreve: «A nossa vida está deteriorada pelas lides da imprensa e do magistério, mas temos a convicção que não temos trabalhado debalde nestes dois campos». Nesse mesmo ano, e já com a saúde debilitada é porta-voz de uma comissão de pais (de mais de 100 assinaturas) dirigida à Câmara Municipal para interceder junto da Direcção Geral do Ensino Primário, a fim de se obter a nomeação de mais um professor porque, como se diz no documento, «a sala comporta 100 alunos, o recenseamento escolar acusa mais de 300 do sexo masculino. É gente de mais, mas far-se-á a diligência para os atender».

Manoel José Ferreira e a sua mulher, Maria Vicência, trabalham desmesuradamente para manter com os parcos rendimentos uma prole enorme, mesmo para a época, de onze filhos. Dois deles são-nos familiares: o Dr. Ernesto da Silva Ferreira, farmacêutico em Alcobaça onde exerceu também o ensino livre; e o Dr. Augusto César da Silva Ferreira, médico e delegado de saúde, fundador da Escola Comercial de Rio Maior, em 1924, e hoje patrono da Escola Secundária.

Eis, em traço breve, a vida exemplar de um homem generoso, grato e confiante no futuro da então vila de Rio Maior. O município já lhe prestou, em devido tempo, a homenagem mais que merecida quando incluiu o seu nome na toponímia da cidade. Mas, continua hoje a ser tempo de o lembrar às novas gerações. Como Manoel José Ferreira acreditamos no amanhã.

 

 

Augusto Tomaz Lopes

(escreve de acordo com a antiga ortografia)

 

Figura 1 - Professor Manoel José Ferreira. Retrato por Pastor. © Fernando Duarte, 1979.

Figura 2 - Antiga Escola de Instrução Primária de Rio Maior. Edifício construído por João José da Costa, coadjuvado pela Câmara Municipal, em 1878. © Nuno Rocha, 1999. Arquivo O Riomaiorense.

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