Projecto Memórias

                                                    

 

 

                                         Por Isabel Azinhais Lima

                                             

 

 

Conhecer os nossos velhos pelos nomes e pelas realizações ao longo da vida ajudar-nos-á a reflectir e a dar identidade à nossa cidade.

 

Invisibilidade social dos velhos na sociedade da imagem

​Se folhearmos uma revista qualquer, seja de informação ou simplesmente de sociedade, verificamos que, com a excepção de alguns artigos específicos,  os mais velhos estão quase sempre ausentes. Não existem também na televisão a não ser que sejam personalidades famosas, nem nos filmes ou novelas, onde passam como meros figurantes.

 

Quando apesar de tudo aparecem na publicidade é sempre em situação de desvantagem: A avó que tem que tomar comprimidos ou usar pomadas, o avô que tem que instalar um elevador no prédio…

 

Por outro lado os apartamentos de pequena dimensão e o trabalho de horários diversificados ou com turnos nas cidades grandes, leva a que muitas familias coloquem os idosos nos lares que visitam apenas ao fim de semana. Assim, os avós deixam de ter a oportunidade de conviver no dia a dia com as crianças e os jovens.

 

Os idosos, apesar de terem um peso demográfico cada vez maior, são incongruentemente invísiveis. (pessoas com mais de 65 anos a residir no Concelho de Rio Maior, segundo a Pordata são 4. 385)  

 

Percepção dos velhos sobre a juventude e dos jovens sobre os velhos

 

Por um lado, os idosos afastados da comunidade em geral também têm uma imagem depreciativa dos jovens, a frase «no meu tempo…»  é usada para classificar como geral o comportamento marginal ou violento da juventude, o que é pelo menos bastante injusto, quando atribuído à geração que em Portugal mais se precupa com o ambiente, ou com as questões sociais, manifestando-o através do trabalho voluntário.

 

Por outro lado, os jovens que cedo foram afastados dos avós, não ouviram as histórias de antigamente e não contaram com a benevolência, a cumplicidade e o tempo dísponível para os ouvir. Os avós são tudo isso e ainda os mediadores da paz no conflito das gerações. Ao quebrar esta ligação estamos a privar os mais novos de algo muito importante.

A associação Via Vitae

Esta associação preocupou-se com este problema. Na sociedade da imagem é necessário dar visibilidade aos mais velhos, é preciso que a frase «no meu tempo» inclua também este tempo aqui e agora. É assim que surge «Memórias de uma Cidade». O objectivo principal foi uma exposição de texto, fotografia e vídeo, trabalho dos alunos e professores das Escolas Secundárias de Rio Maior , Fernando Casimiro … e Profissional e ainda duas caminhadas temáticas orientadas pelos alunos da Escola Superior de Desporto sobre a vivência da 3ª idade em Rio Maior, assente na reconstituição das histórias de vida de idosos residentes no Concelho de Rio Maior.

 

As escolas

O primeiro passo foi envolver as escolas e a Câmara Municipal de Rio Maior. Sem o apoio técnico e financeiro da autarquia nada disto teria sido possível. Foi necessário seduzir os professores e as direcções das escolas para o projecto, fazer ver que todos íamos ganhar, os alunos porque realizariam um trabalho relacionado com a sua área de formação, com alguns meios e em contexto real. Não seria um mero exercicio escolar mas algo que teria realmente importância para a vida da comunidade Riomaiorense. Os cidadãos idosos, porque veriam a sua imagem sob uma luz favorável e todos do contacto e conhecimento mútuo que certamente iria enriquecer as suas vidas. Os professores depressa compreenderam e aderiram ao projecto, dispondo-se a “driblar” provas, finais de períodos e estágios.

O projecto trabalhou a cidadania, a participação, as artes, a expressão e comunicação e as tecnologias de informação.

 

As Caminhadas, a história dos lugares

Caminhar pelas ruas em grupo e parar nos locais mais significativos da cidade foi a forma de contar a história de Rio Maior.  Em cada um destes locais, um jovem estudante da Escola Superior de Desporto contou a história tecida naquele local.  Caminhar por lugares que conhecemos mas olhando de forma diferente é divertido e motivador, desperta a consciência e a responsabilidade em relação ao património que é de todos.

 

Uma fotografia não é necessáriamente um retrato

Quando pegamos numa máquina fotográfica e escolhemos um ângulo, uma expressão ou um cenário podemos estar a fazer uma fotografia, mas captar a personalidade de uma pessoa é algo diferente e complexo, neste acto está a imagem que o outro nos quer dar e a imagem que o fotógrafo vê. Foi isso que estes jovens fizeram, foi aqui, durante as entrevistas, que a interacção entre o mais velho e o jovem melhor se realizou. Responderam com paciência e sorrisos cúmplices.

 

Foi interessante saber que, ou nasceram ou vivem há muitos anos em Rio Maior, quando tiveram que sair, ou porque havia uma oportunidade de emprego noutro lado, ou porque o serviço militar os obrigou, foram muitas as saudades.

 

Mineiro, operário, guarda caminho ferro, mecânico, motorista, professora, doméstica, barbeiro, autarca… diversas ocupações e muitas histórias, mas ficou muito viva a afirmação de que são felizes, felizes quase todos os dias, apesar das perdas ou das doenças. Contaram como a cidade está diferente, como evoluiu, houve quem se lembrasse  com pena da antiga Câmara que era bonita e da cidade muito concentrada em prédios antigos, do jardim, da Avenida  Paulo VI que era a feira da cebola. «Em parte está melhor agora», reconhecem.

 

Também contaram a sua juventude; que tinham muitos amigos, da alegria de aprender na escola, do convivio e da amizade, casamentos para a vida toda, recordaram ainda o feliz dia 25 de Abril «madrugada libertadora … nem imaginam como tudo era cinzento durante a  ditadura».

 

O que mudava na sua vida? Pergunta o jovem com um sorriso… mas ninguém se queixa da vida, embora alguns preferissem mudar algumas coisas, ir mais longe nos estudos, fazer menos «asneiras» ser menos «cábula».

 

E hoje em dia? é pena que agora os pais não eduquem, não sabem dizer não. Antigamente ser jovem era dificil, tudo era proibido, actualmente a vida dos jovem é bela… mas há os exageros.

 

As piores memórias são a perda de familiares.

 

Mas o balanço é positivo no geral, são felizes, resolvidos, enquadrados e sentem o reconhecimento da comunidade.

 

«Antigamente a juventude era mais alegre, feliz e unida, até sabiam assobiar» diz a Nazaré e não é que o jovem se afirma como um bom «assobiador» e sela a entrevista com um abraço.

 

Isabel Azinhais Lima

 

Director e Proprietário: Nuno Alexandre Dias Rocha, 2015-2019. © Todos os direitos reservados.                                                                                             Distribuição gratuita

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