(Arquivo) Memória Descritiva: Como foi descoberto o carvão em Rio Maior (1)

Por António Custódio dos Santos

In O Riomaiorense (2a. Série) no. 264, de 21 de Junho de 1919

 

 

 

 

A história do aparecimento de uma possante camada de lenhite na região de Rio Maior, coisa em que ninguém pensava há cinco anos a esta parte, tem dado lugar a muitas e variadas discussões.

Há entidades diversas que pretendem passar por descobridoras dessa enorme camada e em volta de cada uma se agrupam os respectivos partidários, defendendo cada qual, conforme pode, ou sabe, a dama escolhida.

Ora, até hoje, não conseguiu ainda averiguar-se, mercê da indolência dos nossos costumes, se o carvão de Rio Maior oferece um futuro largo, ou se, pelo contrário, está condenado a viver mais algumas dezenas de milhares de anos debaixo da terra, até que outras gerações mais felizes e porventura mais activas o possam aproveitar.

Todavia, julgo ter chegado a oportunidade de se fazer, clara e desassombradamente, a história da sua descoberta, convidando desde já qualquer pessoa conhecedora do assunto ou que se julgue lesada nos seus direitos de pseudo-descobridora, a contestar-me qualquer ponto em que por acaso eu possa ser menos exacto.

Não me move, bem entendido, nenhum propósito de glória, que para mim é zero, nem tão pouco me deixo arrastar por ambições de ridícula vaidade, desejando apenas narrar singelamente os factos, para que um dia, sendo preciso, a história se faça sem dificuldades.

Eis a minha preocupação e eis o que hei de, honestamente, conseguir:

 

 

Antecedentes do carvão de Rio Maior – Uma obra de Júlio Verne.

 

 

Em Janeiro de 1908, tendo lido a magnífica obra de Júlio Verne, “Índias negras” lembrei-me de que em Alfeizerão, minha terra natal, aparecia num vale onde em pequeno brincara bastante, qualquer coisa parecida com aquele combustível tão maravilhosamente descrito pelo insigne escritor. Ocorreu-me que ali estaria também, completamente ignorada, uma mina de carvão, e dias depois, indo de visita a minha família, aproveitei o ensejo para mandar fazer umas pequenas pesquisas no vale referido. Efectivamente o carvão lá estava. Era o azeviche, característico das regiões calcárias que, como é sabido, se apresenta, por via de regra, em tão pequenas quantidades que não suporta as despesas da exploração.

Eu não conhecia porém, ao tempo, esta circunstância e como achei carvão à superfície, ainda que pouco, supus que avançando para as entranhas da terra, o encontraria em maior quantidade. Mandei, pois, continuar os trabalhos mas o carvão era sempre o mesmo. Desanimado, dei sociedade na mina, já por mim registada na Câmara de Alcobaça, a um capitalista de Lisboa que intensificou tanto quanto pôde as pesquisas, mas que, não sendo mais feliz do que eu, teve a breve trecho, de desistir.

 

 

A guerra Europeia – Rio Maior carbonífero?

 

 

Ainda fui, de ano para ano, renovando sucessivamente o registo na Câmara de Alcobaça, levado apenas por um instinto natural de defesa de direitos, quando a tremenda explosão da guerra Europeia nos surpreende em Agosto de 1914. Os géneros começam a subir pavorosamente, acompanhando, do mesmo modo, o carvão essa subida.

António Custódio dos Santos (1885-1972), comerciante, Presidente da Câmara Municipal de Rio Maior eleito em 6 de Outubro de 1910, tesoureiro da fazenda pública (1912), director do jornal O Riomaiorense (1912-1921), dirigente local do Partido Republicano Evolucionista, descobridor legal da Mina do Espadanal (1916) e sócio fundador da Empresa Industrial, Carbonífera e Electrotécnica, Limitada (1920).

 

Fotografia datada de 1907.  © Colecção Teresa Santos do Carmo, Arquivo EICEL1920.

O Riomaiorense (2a. Série) no. 264, de 21 de Junho de 1919.  © Arquivo O Riomaiorense
 

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