(Arquivo) Memória Descritiva: Como foi descoberto o carvão em Rio Maior (2)

Por António Custódio dos Santos

In O Riomaiorense (2a. Série) no. 265, de 28 de Junho de 1919

 

 

 

 

Como por instinto, o povo lembra-se de que Portugal é bastante rico em minerais e de que entre eles, o carvão não ocupa o último lugar. Um meu amigo, Pedro Ferreira Goucha, de Rio Maior, sabendo que eu havia tido ou ainda tinha uma mina de carvão em Alfeizerão, e conhecendo quanto ultimamente este mineral havia subido de preço, procura-me para me dizer que na Quinta da Várzea, limite do Lobo Morto, próximo de uma sua propriedade, aparecia, à beira de um caminho, qualquer matéria negra que lhe parecia carvão. Sem perda de tempo, fui, acompanhado deste amigo e de um seu irmão, Alberto Ferreira Goucha, visitar a suposta mina, mas confesso que o seu aspecto não me entusiasmou.

A lição de Alfeizerão era ainda recente e eu não podia arriscar levianamente capitais.

Tratava-se, de resto, de um bonito afloramento de lenhite, mas ao tempo eu não sabia sequer o que eram afloramentos e a mina continuou abandonada.

 

Decorreu assim o ano de 1914 e parte do de 1915. O preço do carvão continua a subir, e uns cunhados meus, sejeiros, Silvino Ramos de Sequeira e João Ramos de Sequeira, que consomem na sua oficina bastante combustível, procuram-me também para me convidarem a irmos ver o já meu conhecido afloramento da Quinta da Várzea. Procurei convencê-los de que esse afloramento nenhum valor tinha mas eles insistiram, dizendo que queriam ir buscar uma amostra para fazerem na forja uma experiência prática e então condescendi. Partimos para a Quinta da Várzea, enchemos um saco com lenhite do afloramento e voltámos a Rio Maior fazer a experiência na forja. Contra a minha expectativa, o carvão ardia e ligava regularmente!

 

Então o desânimo de que me achava possuído, transformou-se em entusiasmo! Era preciso agir. Era indispensável fazer-se um poço que cortasse a camada distante do afloramento afim de se poder conhecer o valor aproximado da mina.

 

 

Uma “sociedade” por quotas – O primeiro poço – Dissolução da sociedade.

 

 

O entusiasmo não falta. Constitui-se rapidamente uma sociedade entre as pessoas que haviam tomado parte na descoberta da mina, Pedro Goucha, os irmãos Sequeiras e eu, e procede-se desde logo à abertura do primeiro poço. Aos sete metros de profundidade, pouco mais ou menos, chega-se à camada e então o delírio atinge o seu auge. Cá está ela! Eis finalmente em nosso poder o precioso combustível que já se não adquiria no país, se não, custando, quase, os olhos da cara!!

 

Agora sim. Agora já havia carvão em Portugal e quem tinha as honras de possuir essa inquestionável riqueza era o nosso querido, o nosso adorado concelho de Rio Maior!...

Os trabalhos do poço quase chegavam a parar, porque se supunha tudo realizado: O carvão estava ali. Descobriu-se. Quem quisesse que o fosse buscar, pagando, é claro, a quantia que se estipulasse!...

 

Os irmãos Sequeiras principiam a gastá-lo nas suas forjas para darem o exemplo, mas reconhecendo que ele deixa muitos resíduos e que não satisfaz ainda as exigências da oficina, declaram que não querem mais. Isto leva-me a pensar que estando o carvão mais fundo, menos percentagem terrosa deveria conter e mandei continuar os trabalhos do poço. Decepção fatal!! A camada que eu supunha inesgotável e espalhando-se pelas entranhas da terra, tinha apenas 80 centímetros, findos os quais voltava de novo a aparecer o terreno argiloso da superfície!

O Riomaiorense (2a. Série) no. 265, de 28 de Junho de 1919.  © Arquivo O Riomaiorense
 

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