(Arquivo) Memória Descritiva: Como foi descoberto o carvão em Rio Maior (3)

Por António Custódio dos Santos

In O Riomaiorense (2a. Série) no. 266, de 5 de Julho de 1919

 

 

 

 

Era demais para mineiros debutantes! Primeiro o carvão a não dar o resultado que se esperava. Depois, a diminuta importância da camada, em relação com o que todos nós a havíamos idealizado!!

Todavia, de todos os sócios, quem se encontra menos desanimado nesta altura, sou eu. Ou seja por aquilo que já tenho lido sobre minas de carvão, ou seja porque o instinto alguma coisa de secreto me diga, resolvi continuar a afundar o poço, procurando assim, por intuição, uma segunda camada.

Dando conta destes projectos aos meus sócios, tive a sua absoluta reprovação visto não quererem, diziam, gastar mais dinheiro, pelo que se resolveu dissolvermos a sociedade.

 

 

O manifesto na Câmara – Sós em campo – Para a frente!!

 

 

Não me falecendo por minha parte o ânimo, para largar aos primeiros dissabores uma empresa em que com tanta dificuldade me havia envolvido, tratei primeiro que tudo, de fazer o manifesto da mina na Câmara Municipal, visto que, até aí, nem isso sequer se tinha feito e em vez de continuar procurando no poço, já aberto, a provável segunda camada, mandei proceder à abertura de um outro, a 100 metros de distância do primeiro.

 

Passava-se isto em 1915. Estava só no campo. A desistência dos meus sócios, longe de me desanimar, tinha-me insuflado novas energias.

Para a frente! E um novo poço começou a ser aberto, trabalhando eu, por vezes, ali como um simples operário, pois as regras dos poços de minas ainda aqui se não conheciam e sendo os desmoronamentos constantes, era preciso estar ao pé do pessoal e dar-lhe exemplos de temeridade e de audácia para que ele não desertasse.

 

Foram três longos, três pavorosos meses consumidos na abertura desse poço, que caminhava imensamente devagar devido à água que começou a aparecer logo depois dos 6 metros, e a uma terrível grés que dava cabo de todas as ferramentas. Todavia, depois de esforços inauditos, de desenganos cruéis, de arrelias estupendas, no dia 4 de Outubro de 1915, tinha descoberto o almejado carvão! A camada apresenta uma inclinação de 15 graus, e, por tal motivo, tendo sido cortada no primeiro poço aos 7 metros, só havia aparecido, neste último aos 17, 80m.

 

Esperava-me porém, uma nova desilusão. Contra todas as minhas expectativas, a camada ali era muito menos possante, pois não tinha mais de 40 centímetros, e se bem que o carvão se apresentasse um pouco melhor do que no primeiro poço, a percentagem de terra e pedras misturadas, era muito maior. A chegada do Inverno obrigou-me a parar os trabalhos. De resto, as despesas feitas até ali já eram demasiado fortes para os meus recursos materiais, e se não fossem as chuvas, era a falta de numerário que não me deixaria ir mais longe.

 

Resolvi, entretanto, analisar o carvão colhido do segundo poço, e como conhecia dos meus tempos de comerciante a firma Leites, Sobrinhos & Ca., de Lisboa, foi a esta casa que me dirigi pedindo-lhe para mandar fazer a referida análise.

Satisfeito imediatamente o meu pedido, dias depois, o respectivo boletim, era acompanhado de uma carta em que a firma Leites, Sobrinhos me perguntava se eu já estava ligado a alguma entidade para a exploração da mina, e em caso negativo, se me queria ligar para esse efeito, com aquela casa.

 

Isto e tudo que eu ambicionava, era uma e a mesma coisa! Esgotados os meus recursos, necessitava de alguém que adiantasse o capital, pois sem saber por que estranho pressentimento, tinha quase a certeza de que Rio Maior era uma região carbonífera riquíssima, sendo preciso somente dinheiro e paciência, para se poderem dar com os almejados depósitos.

Poucos dias volvidos, é claro, estava feita uma escritura entre mim e a firma Leites Sobrinhos & Ca. e este facto veio animar-me, mais do que nunca, a prosseguir intemeratamente na tarefa encetada.

 

Muito antes porém, de assinada a escritura e quando ainda estava procedendo à abertura do segundo poço na Quinta da Várzea, veio ter comigo o Sr. José da Costa Siopa, desta vila, informando-me de que, próximo do Espadanal e à beira de um caminho que indicou, aparecia uma matéria preta parecida com a da Várzea.

O Riomaiorense (2a. Série) no. 266, de 5 de Julho de 1919.  © Arquivo O Riomaiorense
 

Director e Proprietário: Nuno Alexandre Dias Rocha, 2015-2018. © Todos os direitos reservados.                                                                                             Distribuição gratuita

  • w-facebook
  • w-tbird
  • w-googleplus