(Arquivo) Memória Descritiva: Como foi descoberto o carvão em Rio Maior (5)

Por António Custódio dos Santos

In O Riomaiorense (2a. Série) no. 268, de 19 de Julho de 1919

 

 

 

 

Apenas tive conhecimento deste facto, e como que tocado por qualquer íntimo pressentimento, entendi não dever esperar mais tempo: Fui à Câmara e fiz o requerimento para registar o Espadanal. Apresentando-o ao chefe da secretaria, meu amigo, Sr. Ernesto Alves, este sorrindo-se, aconselha-me a que não gaste mas dinheiro, pois tem falado várias vezes com o Sr. Ayres de Sá, mais entendido do que eu de coisas minerais e este afirma que em Rio Maior não há carvão, acrescentando mesmo que, se o houvesse e o encontrasse nas suas sondagens, lhe não mexeria, por saber que era eu, e não ele que o andava procurando. Repliquei àquele amigo que, por minha vez, conhecia talvez melhor do que ele, pela dura experiência da vida, a psicologia humana, e então que lhe agradecia o conselho, mas que fizesse o registo. Acabava de proferir estas palavras, quando o amanuense da Câmara Sr. Luís Júlio de Sá Pereira, entrando na secretaria me diz textualmente:

“Estão ali no corredor, dois sujeitos para entrarem, mas, evidentemente, porque V. aqui está, não o querem fazer”.

Naturalmente, retorqui:

“Nesse caso saio já.

Mas, indivíduos que não entram por eu aqui estar, quem podem ser?”

- O Sr. Ayres de Sá e o irmão – respondeu o amanuense – que trazem nas mãos uma porção de folhas de papel, certamente requerimentos para mais registos de minas.

 

Como iluminado por estranha luz, vi, num momento, tudo que se passava. Intimei o chefe da secretaria a fazer-me desde logo o registo do Espadanal e pedi ao Sr. Luís Sá, amanuense, para ir à Tesouraria de finanças fazer o depósito respectivo e comprar os selos precisos para o registo.

Dei-lhe um papel com a nota do que queria e dinheiro para estas despesas.

 

Os Srs. Sás que continuavam no corredor, logo que viram sair o amanuense com dinheiro e um papel nas mãos, desconfiam por sua vez do que se passa, e entrando na secretaria, mesmo comigo lá dentro, apresentam ao chefe de repartição 21 registos de carvão! Este mostra-lhes o livro de manifestos de minas e o requerimento que eu já lhe havia entregado, com referência ao Espadanal, o que por completo desnorteia os Srs. Sás, deixando-os quase em absoluto fulminados!

 

Entretanto, a opinião pública de Rio Maior informada do que se passa, começa a manifestar o seu desagrado perante uma acção tão pouco correcta, praticada por quem, materialmente, nenhuma necessidade tinha de a praticar, o que leva os Srs. Sás a cobrirem a retirada, afirmando de novo, que em Rio Maior não havia carvão e que, se tinham feito os registos, era porque os seus sócios, de Lisboa, lhes haviam dado essa ordem, com o único fim de aproveitarem, para adubo, uma matéria turfosa que aparecia no Espadanal!

 

Nesta altura, chega a Rio Maior, um capataz das minas de Aljustrel, o Sr Manuel Salvador, que marca o sítio do poço para pesquisas, no Espadanal, elucidando-me então sobre a abertura destes poços e dando-me outras preciosas informações, que até ali eu por completo desconhecia.

 

Pouco depois vêm dois entivadores mandados pelo Sr. Salvador e os trabalhos começam, cortando-se aos 13,80 a camada de lenha fóssil de 1,20 de possança e aos 37,50 a de lenhite que se reconhece ter sete metros, aproveitáveis, e não doze, visto os outros cinco se acharem por completo entremeados com argila que lhes tira todo o valor.

 

E eis, singela e despretensiosamente narrada, a história da descoberta do carvão em Rio Maior. Aponto apenas factos, cito nomes, tendo a certeza que ninguém me poderá desmentir.

 

 

O Riomaiorense (2a. Série) no. 268, de 19 de Julho de 1919.  © Arquivo O Riomaiorense
 

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