Memórias da Comunidade Mineira de Rio Maior, 1916-1969 (3)

 

 

 

 

 

2. CONDIÇÕES LABORAIS

 

 

Nos períodos de maior actividade (1942-1945; 1955-1963), o couto mineiro teve uma média diária de 300 operários de fundo. A escassa mecanização da lavra obrigava ao emprego de uma mão-de-obra excessiva. Nas frentes de desmonte, o carvão era cortado à picareta pelos mineiros, sem recurso a ferramentas eléctricas (figura 7). O minério era depois carregado pelos safreiros em carros de mão, apelidados de “perus” (figura 8), numa distância que podia exceder os 100 metros, até às galerias de rolagem. Aqui, era transferido para vagonetas, empurradas com recurso ao trabalho braçal dos vagoneiros (figura 9) até à receita interior, onde eram rebocadas por locomotivas eléctricas (figura 10), apelidadas pelos operários de “grazines”, até ao guincho de extracção.

 

À superfície, a actividade do couto mineiro organizava-se em três pólos:

 

1 - O pólo do Espadanal, no qual se localizavam o posto médico, o refeitório, a direcção técnica, escritórios de administração, topografia e desenho, ferramentaria e apontadoria, armazéns, oficina eléctrica e garagem. Trabalhava nesta secção uma média de 20 funcionários.

 

2 – O pólo dos Bogalhos no qual se localizava o sistema de drenagem de águas, com uma central eléctrica e a secção de bombas.

 

3 – O pólo do Plano, que integrava o plano inclinado de extracção, a receita exterior, oficinas de carpintaria e serralharia, o sistema de processamento do minério, com a fábrica de briquetes, integrando as secções de produção de energia, trituração, secagem e arrefecimento, briquetagem e silos, nas quais trabalhavam 13 operários por turno, e a secção de expedição, constituida pelo cais da via-férrea de Rio Maior ao Vale de Santarém, com armazém coberto numa extensão de 200 metros. O transporte do carvão seco da fábrica de briquetes para o cais empregava dois turnos diários de 20 trabalhadores.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O horário de trabalho no fundo da mina regia-se pelo limite de oito horas diárias fixado pelo Decreto-lei n.º 24.402, de 24 de Agosto de 1934.  Para que a extracção mineira funcionasse em contínuo, o trabalho era organizado em três turnos diários de oito horas. O pessoal administrativo tinha um contrato colectivo de trabalho diferenciado que, após revisão em Janeiro de 1962, passou a prever a aplicação da semana inglesa (quarenta e quatro horas de trabalho semanal; oito horas de segunda a sexta-feira e quatro horas ao sábado de manhã), mas que não foi cumprido pela empresa.

A Mina do Espadanal cumpria o dia de descanso semanal ao domingo, de acordo com o artigo 26.º do Estatuto do Trabalho Nacional. No entanto, uma vez que as instalações mineiras não podiam encerrar por completo, mantendo activos ao domingo alguns trabalhos de manutenção de galerias e maquinaria, era necessária a presença de um número reduzido de trabalhadores. Segundo recordam os antigos funcionários, era grande a competição para exercer funções neste dia devido à remuneração em dobro, de acordo com a lei.

A EICEL tinha também em conta a recomendação do artigo 28.º do Estatuto do Trabalho Nacional, concedendo aos seus funcionários um período de seis dias de férias remuneradas por ano. Alguns dos antigos mineiros recordam, no entanto, que, devido às dificuldades económicas, optavam por prescindir dos dias de férias, feriados e dias de descanso semanal a que tinham direito para auferirem uma remuneração suplementar.

Figura 7 - Mineiro Manuel Adrião na frente de desmonte. Fotografia por José Lobo. Reprodução de O Século Ilustrado n.º 888, de 8 de Janeiro de 1955.

Figura 8 - Safreiro carregando um "perú". Fotografia por José Lobo. Reprodução de O Século Ilustrado n.º 888, de 8 de Janeiro de 1955.

Figura 10 - Operários junto a uma locomotiva eléctrica "grazine", na receita interior do plano inclinado de extracção. Da esquerda para a direita: Horácio Palminhas, João Severino Inácio, António Gomes e Mário Coirinho, 25 de Abril de 1955. © Colecção João Severino Inácio, Arquivo EICEL1920.

Figura 9 - Vagoneiros Sidónio Bárbara e Manuel Leites empurrando uma vagoneta em galeria de rolagem. Fotografia por José Lobo. Reprodução de O Século Ilustrado n.º 888, de 8 de Janeiro de 1955.

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