Memórias da Comunidade Mineira de Rio Maior, 1916-1969 (5)

 

 

 

 

 

3. ASSISTÊNCIA SOCIAL

 

 

Os antigos funcionários da EICEL recordam uma integração difícil num meio social fechado e conservador, referindo a existência de uma tendência para a segregação e discriminação de classe.

A chegada à vila de Rio Maior de cerca de 1500 pessoas oriundas na sua maioria das regiões mineiras alentejanas, vivendo “em miseráveis barracas (...), sem higiene, sem ar nem luz” (7), provocou a ruptura da capacidade assistencial do Hospital da Santa Casa da Misericórdia, que ameaçou encerrar portas.

A comunidade riomaiorense mobilizou-se, no entanto, para dotar o hospital dos recursos necessários, através da organização de cortejos de oferendas que se repetiram durante anos.

A EICEL contribuiu para a resolução das dificuldades assistenciais da comunidade mineira, com a construção, em 1945, de um posto médico nas instalações mineiras (figura 12) devidamente equipado e servido por um médico e um enfermeiro, contratados pela empresa: Dr. Arnaldo Vidigal Pais e Rogério Soares Louro. A empresa apoiou também o Hospital da Misericórdia na construção de um pavilhão de isolamento para o tratamento de doenças infecto-contagiosas.

 

Em plena II Guerra Mundial, num contexto de racionamento, a EICEL forneceu géneros alimentícios aos seus funcionários, em armazém próprio (8). No pós-guerra, o Jornal Avante, órgão central do Partido Comunista Português, registou a realização de duas concentrações de operários das minas de carvão de Rio Maior “exigindo mais pão e mais géneros” (9).

Dois anos após estas notícias, a 31 de Março de 1948, foi constituída a Cooperativa do Pessoal da EICEL, que regulou em definitivo o abastecimento aos operários.

A nova Cooperativa tinha como objectivo fornecer aos sócios “artigos e géneros de consumo doméstico com garantia de qualidade e preço”, “refeições”, “mobiliário e reparação de habitação, etc.”, criar e manter “escolas, oficinas, tais como: de sapataria e alfaiataria”, “moagem e padaria, sempre que possível” e “serviços de puericultura” (10). As instalações funcionaram em loja alugada no centro da vila, aos n.ºs 33 e 35 da Rua 5 de Outubro (figura 13).

Os funcionários da empresa eram obrigatoriamente constituídos sócios da Cooperativa, pagando uma quota anual mesmo que não usufruíssem dos serviços. O custo dos géneros adquiridos era descontado no salário. Segundo os antigos mineiros, este sistema gerava situações de dependência, com muitos funcionários a verem a quase totalidade dos seus salários empenhada no pagamento de dívidas à cantina da Cooperativa.

 

Em resposta à inexistência de instituições de apoio à natalidade no concelho de Rio Maior, a EICEL promoveu a criação de um Centro de Assistência Infantil para servir, não apenas as esposas e filhos dos funcionários da empresa, mas toda a comunidade riomaiorense.

O Centro de Assistência Infantil de Rio Maior (CAIRM) foi instalado em espaço cedido pela Casa do Povo local, no edifício-sede desta organização corporativa, mediante a realização de obras de ampliação (figura 14). A nova instituição, inaugurada em 1948, prestou serviços de Assistência Pré-Natal (análises, medicamentos, observação médica, conselhos sobre alimentação), assistência no parto e Lactário (distribuição de leite às crianças, assistência médica, fornecimento de medicamentos), dirigidos pela Subdelegada de Saúde do concelho, coadjuvada por uma Assistente Social contratada pela EICEL.

A Assistente Social, Dra. Maria Luísa de Azambuja Cardoso Aires, exercia em simultâneo uma função de visitadora, prestando apoio às famílias dos funcionários da EICEL, dos quais guardava um ficheiro detalhado com a identificação de todos os membros da família, habilitações literárias, estado de saúde, “condições morais, económicas e higiénicas”, ideias politicas, condições de habitação, e descrições de todas as visitas realizadas (figura 15).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 15 - Ficheiro do pessoal da EICEL. Ficha do operário n.º 100, Júlio Pinto Corrêa. © Colecção Célia Flores, Arquivo EICEL1920.

(7)

“Ouvindo o Sr. João Ferreira da Maia, Provedor da Santa Casa da Misericórdia”. In Concelho de Rio Maior, n.º 153. Rio Maior, 1 de Novembro de 1944.

(8)

MENA, L.F. – Relatório referente às actividades do Couto Mineiro do Espadanal no ano de 1946. Rio Maior, 30 de Janeiro de 1947, 7p + gráfico. AHMIN, DGEG.

(9)

“Marchas de fome e concentrações”. In Avante, VI Série, n.º 87, 2ª Quinzena de Abril de 1946, pág.3

(10)

“Cooperativa de Pessoal da EICEL. Sede em Rio Maior”. In Concelho de Rio Maior, n.º 224. Rio Maior, 15 de Abril de 1948.

Figura 12 - Posto Médico na Secção do Espadanal, Janeiro de 1946. © Colecção Luís Falcão Mena, Arquivo EICEL1920.

Figura 13 - Edifício onde funcionou a antiga Cantina da Cooperativa do Pessoal da EICEL, na Rua 5 de Outubro, em Rio Maior, 2008.

© Colecção Nuno Rocha, Arquivo EICEL1920.

Figura 14 - Antiga Sede da Casa do Povo de Rio Maior, na Rua Dr. Francisco Barbosa, em Rio Maior, 2005. © Colecção Nuno Rocha, Arquivo EICEL1920.

Director e Proprietário: Nuno Alexandre Dias Rocha, 2015-2018. © Todos os direitos reservados.                                                                                             Distribuição gratuita

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