O Centro Histórico de Rio Maior. Proposta de salvaguarda (3)

 

 

                         

 

 

 

1.2 – (Século XIX) Criação do Município e renovação urbana. A Praça do Comércio

 

 

O século XIX marca um período de modernização no tecido urbano da vila de Rio Maior após a criação do Município por Decreto Régio de D. Maria II, de 6 de Novembro de 1836.

  

Contemporânea da fundação do Município, a Praça do Comércio assume-se como o espaço público mais qualificado da vila. A nova praça segue, à escala de Rio Maior, os princípios racionalistas do seu tempo, abrindo, no centro do tecido urbano denso, orgânico e irregular, de origem medieval, um espaço público com contornos geométricos regulares, aproximadamente um quadrado de 20 x 20 m, tangente ao principal eixo de circulação, a Rua Direita.

Ocupando nesta época uma área consideravelmente inferior à actual, a praça marcou o primeiro momento de introdução da modernidade no antigo traçado urbano. Símbolo de uma renovada identidade urbana e da capacidade executiva da nova autoridade municipal, a praça será também, em 1864, um dos pontos de chegada à vila do novo sistema de abastecimento de água que vem substituir as velhas fontes de mergulho (Fonte Velha e Fonte do Galinha). São construídos com subsídio do Governo dois fontanários estrategicamente colocados na Praça do Comércio (figura 13) e no Cabo do Lugar (actual Praça da República) (16).

 

A vila atravessa durante a Monarquia Constitucional um período notável de consolidação urbana. A qualificação do espaço público é acompanhada pela construção de novos equipamentos de iniciativa pública e privada. A Câmara Municipal é instalada em 1838 no edifício do antigo hospício de frades franciscanos no Cabo do Lugar (actual Praça da República), que será profundamente modificado em 1900, adquirindo então uma fachada neoclássica (figura 14). Em 1878 é construída a primeira Escola Primária da vila, por iniciativa do benemérito João José da Costa, coadjuvado pela Câmara Municipal, que vem formar um belo conjunto arquitectónico com a antiga Capela da Irmandade das Almas. Uma acrópole cultural de inspiração neoclássica que coroa a paisagem urbana e será a principal imagem da vila durante quase um século (figura 15). Do adro da pequena capela observava-se "um magnífico panorama" (17), segundo nos conta Augusto Pinho Leal no seu Portugal Antigo e Moderno, em 1878.

 

 

 

Entre os cidadãos, homens cultos como Emídio José de Oliveira, Bernardino Arede Soveral, Francisco Inácio Regalo, José Carreira de Almeida e Francisco Henriques de Carvalho, movidos pelo desejo de desenvolvimento cultural da pequena vila de Rio Maior reúnem-se numa comissão para a construção do Teatro Riomaiorense (1880) (18) (figura 16).

 

O património religioso é renovado. A Capela da Santa Casa da Misericórdia, que assume as funções de Igreja Matriz desde a ruína da velha Igreja de N.a S.a da Conceição, será objecto de uma reconstrução entre 1898 e 1901, numa campanha de obras dirigida pelo Padre Gaspar Antunes da Costa, da qual resulta a fachada neoclássica actual (19) (figura 17). A Capela da Irmandade das Almas é também renovada nesta época por subscrição pública (20).

 

 

 

O investimento privado acompanha o Município no desejo de engrandecimento da vila, com a construção de edifícios de arquitectura qualificada. Nota-se a influência de tipologias e estilos da arquitectura residencial burguesa que marcam a paisagem urbana portuguesa oitocentista. Casas unifamiliares de dois pisos, com comércio no piso térreo, piso nobre reservado à residência familiar e águas furtadas destinadas aos serviçais, voltando fachadas de desenho cuidado às ruas principais, e estando normalmente dotadas de pequenos pátios exteriores nas fachadas de tardoz.

 

A família Regalo constrói a sua casa no gaveto da Praça do Comércio com a Rua Direita, na primeira metade do século, num estilo neo-pombalino (figuras 18), com piso térreo comercial, piso nobre marcado por varanda corrida e janelas de sacada com gradeamentos de ferro forjado, e um segundo andar, excepcional na vila, para os serviçais. Será um exemplar único, e hoje infelizmente desaparecido, de um gosto certamente influenciado pela presença habitual da família na capital do reino, com escadaria de amplas dimensões e uma decoração cuidada dos espaços interiores, com estuques pintados e tectos de madeira de requintado trabalho artesanal.

Em meados do século predomina na Rua Direita um estilo arquitectónico chão, com piso térreo comercial, piso nobre marcado por varandas com gradeamentos de ferro forjado e águas furtadas com mansarda. São exemplo a casa de José Carreira de Almeida (figura 19), a casa de Virgílio Cacela (figura 20), e a antiga casa de Marcolino Pereira Nobre, demolida na década de oitenta.

 

No final do século a vila é pontuada por um conjunto de edifícios de assinalável qualidade arquitectónica, numa arquitectura chã de influência neoclássica, que marcará a construção local até às primeiras décadas do século XX. Edifícios caracterizados por fachadas principais simétricas delimitadas por pilastras decorativas lisas e rematadas por cornija, com vãos de grande dimensão em arco de volta perfeita, rematados por pedra de fecho decorada. Destacam-se três edifícios com pormenores arquitectónicos que denunciam a possível mão de um mesmo construtor: a casa Henriques de Carvalho, na Rua Serpa Pinto (1874) (figura 21), a casa de Emídio José de Oliveira, na Rua João de Deus (1890) (figura 22), que amplia uma antiga construção do século XVIII, e a casa na Rua Serpa Pinto n.o 14 (figura 23).  

 

 

 

 

Merecem ainda referência exemplos raros da introdução em Rio Maior de uma arquitectura de gosto ecléctico, como a casa na Rua David Manuel da Fonseca n.o 26, e o prédio de rendimento, com vãos de arco canopial e revestimento de fachada com azulejos de estampilha, na Rua Gil Vicente n.os 12 a 23 (actual Rua Cidade de Santarém) (figura 24).

(17)

LEAL, Augusto de Pinho – Portugal Antigo e Moderno. Vol.8. Lisboa: Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 1878, pág. 199.

(18)

LOPES, Augusto Tomaz - “O Teatro em Rio Maior – Tradição Antiga”, disponível na página de internet do Município de Rio Maior, a 1 de Outubro de 2018.

(19)

MENDONÇA, Isabel - “Igreja Paroquial de Rio Maior/ Igreja da Santa Casa da Misericórdia de Rio Maior. Ficha IPA n.o 00008548”, disponível na página de internet do SIPA, Direcção Geral do Património Cultural, a 1 de Outubro de 2018.

(20)

“Capella das Almas. Subscripção”. In O Riomaiorense (1.a Série), n.o 47. Rio Maior, 20 de Maio de 1894, pág. 1.

(continua na página seguinte)

Figura 13 - Praça do Comércio, Rio Maior, vendo-se ao centro o antigo fontanário datado de 1864. Anos 10. Bilhete-Postal Ilustrado. © Colecção António Feliciano Júnior. Arquivo O Riomaiorense.

Figura 15 - Antiga Escola Primária e Capela de N.a S.a da Vitória. © Nuno Rocha, 1999. Arquivo O Riomaiorense.

Figura 17 - Capela do Espírito Santo, Santa Casa da Misericórdia. © Nuno Rocha, 2017. Arquivo O Riomaiorense.

Figuras 19 e 20 - Casa de José Carreira de Almeida e Casa de Virgílio Cacela, Rua Serpa Pinto. © Nuno Rocha, 2007, 2008. Arquivo O Riomaiorense.

Figura 22 - Casa de Emídio José de Oliveira, Rua João de Deus. © Nuno Rocha, 2008. Arquivo O Riomaiorense.

Figura 14 - Antigo edifício da Câmara Municipal de Rio Maior. Largo da República, Anos 10. Reprodução de: Duarte, Fernando, História de Rio Maior. Rio Maior: Edição do autor, 1979, pág. 25.

Figura 16 - Antigo Teatro Riomaiorense, Rua Gil Vicente (actual Rua Cidade de Santarém). © Colecção António Feliciano Júnior. Arquivo O Riomaiorense.

Figura 18 - Casa Regalo, Praça do Comércio, Anos 30. © Colecção António Feliciano Júnior. Arquivo O Riomaiorense.

Figura 21 - Casa Henriques de Carvalho (à direita), Rua Serpa Pinto, Anos 30. © Colecção António Feliciano Júnior. Arquivo O Riomaiorense.

Figura 23 - Casa na Rua Serpa Pinto n.o 14. © Nuno Rocha, 2018. Arquivo O Riomaiorense.

Figura 24 - Edifício na Rua Cidade de Santarém n.os 12 a 23. © Nuno Rocha, 2016. Arquivo O Riomaiorense.

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