O Centro Histórico de Rio Maior. Proposta de salvaguarda (4)

 

 

                         

 

 

 

1.3 – (Século XX) A I República e o alargamento do espaço público

 

 

Após um período de estagnação económica e instabilidade política vivido nos anos finais da monarquia, cresce entre os riomaiorenses o apoio à revolução republicana. António Custódio dos Santos, importante comerciante local e futuro descobridor legal da Mina do Espadanal (21), gere a sua Loja do Povo no rés-do-chão da casa Regalo, aos n.os 1 e 2 da Praça do Comércio. É um dos fundadores, em 1908, do Centro Escolar Republicano Dr. António José de Almeida, junto à Praça do Comércio, na actual Travessa António José de Almeida. Aqui discursam, em 1909, dois futuros Presidentes da República: o patrono do Centro Escolar Republicano e Bernardino Machado (22).

  

Com a implantação da República, o velho burgo conhece um segundo momento de modernização, sob um princípio de valorização do espaço público - o espaço de todos os cidadãos. Qualificar os espaços urbanos da vila, higienizar, construir espaços de lazer e renovar as infra-estruturas são os passos decisivos que os homens da República levarão por diante.

António Custódio dos Santos, Eugénio Casimiro, João Ferreira da Maia e José Dâmaso de Almeida promovem o alargamento da Praça do Comércio, do Largo da República e da Rua 5 de Outubro e adquirem os terrenos para a construção do primeiro parque público da vila, o actual Parque 25 de Abril.

 

A Praça do Comércio é ampliada na década de vinte com a demolição de três prédios pertencentes a Francisco Inácio Regalo, Manuel Lúcio Franco e António Carreira de Almeida (23). A fachada Norte da praça é rematada pelo novo edifício da Farmácia Barbosa. O velho muro de suporte de terras da Rua David Manuel da Fonseca é prolongado, e as escadas de acesso à praça são recolocadas a eixo do novo espaço público em dois lanços paralelos ao muro de suporte. A plataforma da praça é definida por uma calçada (figura 25). Os trabalhos de ampliação da praça são concluídos já durante os anos da ditadura militar, em 1931, com a substituição do velho fontanário oitocentista por um novo fontanário de desenho Art Déco localizado na confluência das ruas João de Deus e David Manuel da Fonseca (figura 26).

 

 

 

 

O antigo Cabo do Lugar é transformado no Largo da República, com a demolição de edifícios fronteiros à Câmara Municipal (figura 27), e a velha Rua de S. Sebastião é transformada na Rua 5 de Outubro (figura 28), com a demolição infeliz da antiga Capela de S. Sebastião para alargamento do terreiro da feira anual, em 1914.

 

 

 

 

A vila atravessa durante a Primeira República um novo momento de qualificação arquitectónica com a construção de edifícios bem inseridos na estrutura urbana, adoptando ainda as tipologias oitocentistas da casa burguesa. Persistem e desenvolvem-se os estilos predominantes no final do século XIX. Encontramos ainda exemplares de uma arquitectura chã de influência neoclássica, como a casa na Rua Mouzinho de Albuquerque n. os 19 a 25 (1913) (figura 29), a casa na Travessa da Estalagem n.o 1 (figura 30), ou a casa de João Ferreira da Maia na Rua Direita.

 

Merecem referência exemplares de arquitectura ecléctica como o edifício na Rua David Manuel da Fonseca n.os 1 a 9, a casa na Rua Serpa Pinto n.os 39-41, a residência de Bernardino Arede Soveral na Rua 5 de Outubro n.os 10 a 18, ou a Vila Lopes, prédio de rendimento localizado na Rua do Jornal O Riomaiorense n.os 4-6 (figura 31) cuja fachada estava originalmente revestida com azulejos hidráulicos verdes, semelhantes aos que encontramos em dois edifícios contemporâneos localizados na Rua João de Deus n.os 35-39 (figura 32) e na Rua David Manuel da Fonseca n.os 46-50 (figura 33).

 

A área urbana expande-se ao longo da estrada de Santarém, até ao sítio do Gato Preto, e ao longo da Rua do Loureiro (actual Rua João T. Barbosa) e da nova Avenida do Parque (actual Avenida João Ferreira da Maia, dando-se uma ruptura com a implantação urbana em encosta, e iniciando-se a urbanização de terrenos com aptidão agrícola, que terá continuidade ao longo do século XX.

(21)

ROCHA, Nuno – Couto Mineiro do Espadanal (Rio Maior). História , Património, Identidade. Dissertação de Mestrado apresentada ao Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, sob a orientação do Prof. Doutor Fernando Grilo, 2010.

(22)

ROCHA, Nuno – “António Custódio dos Santos, 1885-1972”. In O Riomaiorense, 11.a Série, n.o 3. Rio Maior, 31 de Dezembro de 2017, disponível na internet a 1 de Outubro de 2018.

(23)

“Raios & Coriscos: A Praça”. In O Riomaiorense (2.a Série), n.o 263. Rio Maior, 12 de Maio de 1917, pág. 1.

(continua na página seguinte)

Figura 25 - Praça do Comércio, Anos 30. © Colecção António Feliciano Júnior. Arquivo O Riomaiorense.

Figura 27 - Largo da República, Anos 10/ 20. Bilhete-Postal Ilustrado. © Colecção António Feliciano Júnior. Arquivo O Riomaiorense.

Figura 29 - Casa na Rua Mouzinho de Albuquerque no.s 19 a 25. © Nuno Rocha, 2017. Arquivo O Riomaiorense.

Figura 31 - Vila Lopes, Rua do Jornal O Riomaiorense. © Nuno Rocha, 2005. Arquivo O Riomaiorense.

Figura 26 - Fontanário Art Déco, Ruas João de Deus e David Manuel da Fonseca. © Nuno Rocha, 2008. Arquivo O Riomaiorense.

Figura 28 - Rua 5 de Outubro, Anos 10/ 20. Bilhete-Postal Ilustrado. © Colecção António Feliciano Júnior. Arquivo O Riomaiorense.

Figura 30 - Casa na Travessa da Estalagem no. 1. © Nuno Rocha, 2018. Arquivo O Riomaiorense.

Figura 32 - Edifício na Rua João de Deus no.s 35-39. © Nuno Rocha, 2017. Arquivo O Riomaiorense.

Figura 33 - Edifício na Rua David Manuel da Fonseca no.s 46-50. © Nuno Rocha, 2018. Arquivo O Riomaiorense.

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