Para a História de Rio Maior na Idade Média (2)

 

 

 

 

 

 

Ignora-se quase tudo sobre a ocupação humana do território e a origem da aldeia. Que se saiba, a arqueologia não revelou testemunhos de ocupação islâmica do sítio de Rio Maior e as fontes dessa época estão essencialmente interessadas nas cidades e nos castelos, quer dizer, nos centros de poder, e pouco ou nada adiantam sobre o povoamento rural. Por isso, todas as notícias que se conhecem são posteriores à conquista cristã de Santarém. A mais antiga encontra-se numa carta de venda da quinta parte da água do poço das marinhas, feita em 1177 à Ordem do Templo. Através dela, pode datar-se, pois, o interesse pelo território e a ocupação deste, não a existência da aldeia. Na carta de 1177, cujo original se perdeu e só se conhece por cópia posterior, alude-se, porém, à albergaria de Rio Maior, que era então co-proprietária da água das marinhas. Eram comuns estas instituições ao longo dos caminhos mais importantes, apoiando, com dormida e alimentos gratuitos, os viajantes e os peregrinos. A sua existência junto ao rio e à aldeia está confirmada por diplomas posteriores, que dizem ser ela propriedade dos monarcas, mas a referência da carta de 1177 atesta que passava pela aldeia uma importante via de comunicação, que aproveitava o vale do rio para ligar Óbidos a Santarém. Esse eixo pode ter sido uma das razões para o desenvolvimento da aldeia, tanto mais que a albergaria exigia a presença de um albergueiro e da respectiva família, para apoio de quem nela pernoitava.

 

Não era a albergaria, nem mesmo as marinhas de sal, os únicos factores de atracção e de fixação do povoamento. Também existia no território uma mina de ferro, detida em 1250 pelo mosteiro de Alcobaça e conhecida por diploma que Virgínia Rau há muito publicou. Atestada desde 1249, a mina estava equipada com instrumentos de fundição (strumenta ad ferrum fundendum), era dirigida por um mestre da ferraria e laborou, ao menos, até finais do século XIV. Não se conhece a sua localização exacta, mas é muito provável que se situasse na actual Freiria, local onde o mosteiro de Alcobaça possuía uma granja, que era uma unidade de exploração típica dos cistercienses, quase sempre dotada com uma capela e habitada em regra por uma pequena comunidade de monges e de conversos. Dessa comunidade veio por certo a designação do sítio actual, já que o termo freiria evocava precisamente a morada de uma comunidade de freires. A menos que a Freiria de hoje seja uma corruptela de ferraria, porque aquela exploração de Alcobaça era então conhecida como a granja da ferraria.

 

Eram estes, em rigor, os recursos do território que provocavam a atenção dos poderosos da época e que atraíam gente para o espaço em redor. Ignora-se desde quando, embora não seja impossível que aqueles recursos (as marinhas, a mina, a estrada e a albergaria) já estivessem em uso durante a época islâmica. Nada o comprova de forma directa, como já se indicou, mas era difícil que pudesse ter sido de outro modo, quer atendendo ao valor e à importância do sal e do ferro, quer olhando à data muito recuada em que a albergaria régia e as marinhas de sal surgem mencionadas pela primeira vez. Graças a um diploma de 1191, sabe-se, de resto, que as gentes de Santarém tomaram terras por conquista (presúrias) em Rio Maior, sendo provável que seja essa a origem dos direitos de propriedade já referidos na carta de 1177. Como mostra a letra de muitos forais, era comum os monarcas apropriarem-se dos bens das mesquitas e dos líderes muçulmanos. Talvez a albergaria de Rio Maior se encontrasse entre os prédios tomados pelo monarca.

 

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Figura 2 - Panorama da assistência durante a Conferência proferida pelo Prof. Doutor Luís Filipe Oliveira, na Biblioteca Municipal de Rio Maior, 28 de Setembro de 2018. © Jornal Região de Rio Maior.

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