Para a História de Rio Maior na Idade Média (3)

 

 

 

 

 

 

Fosse como fosse, o citado diploma de 1191 prova a existência de povoamento organizado. Após dividirem entre si outros bens e rendas de S. Maria da Alcáçova de Santarém, o prior e os clérigos desta igreja mantiveram em comum a dízima dos paroquianos de Rio Maior, tal como a dízima do sal do rei. Dízima dos paroquianos, quer dizer, dos fregueses, dos fiéis de Rio Maior que frequentavam regularmente a igreja da aldeia e que satisfaziam esse direito àquela igreja de Santarém, padroeira da igreja local. Dízima dos paroquianos, portanto, não da paróquia, nem mesmo de todos os moradores. Nessa época, o estatuto de freguês era um laço pessoal, nascido de uma escolha individual e da assistência aos serviços prestados por um dado sacerdote numa dada igreja. Não tinha então um vínculo territorial preciso, que só se definiria durante o século XIV, por pressão da fiscalidade eclesiástica e das estruturas da Igreja. Se alguns deles podiam ser fregueses doutra paróquia, outros havia que moravam por certo na aldeia de Rio Maior.

 

Da localização e da configuração da aldeia nessa época, pouco se pode saber. Os dados proporcionados pelos tombos de Alcobaça, mas também por outros diplomas, sugerem que a aldeia se organizou à margem da igreja local. Como se sabe, a igreja primitiva situava-se no cemitério actual, na margem esquerda, enquanto o núcleo habitado ocupou, ao que parece, o pequeno morro do outro lado do rio. Ignoram-se os motivos de tal opção, mas a situação periférica da igreja revela que esta não teve um papel decisivo no agrupamento das gentes e na génese da aldeia. Talvez a solidariedade suscitada pela organização do trabalho na mina de ferro e nas marinhas fosse capaz de agrupar o povoamento, em particular nos primeiros tempos. Se assim foi, isso não se traduziu numa aldeia compacta, estruturada a partir de um centro. Muito pelo contrário, a documentação sugere uma aldeia de tipo alveolar, para usar uma expressão dos geógrafos, em que as casas de habitação não confrontam umas com as outras, mas estão separadas por quintais, por vinhas, mas também por searas. É a imagem de uma aldeia desse género que se obtém através da leitura do tombo de Alcobaça de 1252, quando o mosteiro tinha 12 foreiros que viviam e trabalhavam em Rio Maior.

Para o século XIV, as informações disponíveis mostram um reagrupamento das construções, com a expulsão das parcelas agrícolas para o exterior. Não tanto dos quintais e das vinhas, que exigiam um trabalho contínuo ao longo do ano e se apegavam às casas por toda a parte, mas sobretudo das searas, que se podiam localizar com proveito nos melhores terrenos e serem cultivadas a distâncias muito superiores. Data dessa época a organização de uma estrutura viária rudimentar, com a menção a uma rua direita no povoado. Com se sabe, estas eram ruas de passagem, que uniam directamente os locais mais frequentados de uma vila, ou cidade, sendo provável que em Rio Maior ela se identificasse com o caminho que vinha da igreja e do rio e a partir da qual se deve ter organizado a aldeia. Também há notícia, para o século XIV, da existência de uma capela no interior do povoado, que se juntava, assim, à antiga igreja paroquial. Era propriedade de uma linhagem de pequenos cavaleiros do Norte, os do Casal, que se haviam fixado em Rio Maior por meados do século XIII. Apesar das ligações a Santarém, os de Casal tinham um paço em Rio Maior, ao qual pertencia aquela capela e que se manterá habitado durante o século XV. Por essa época, a aldeia tinha já uma estrutura urbana mais compacta, na qual foram surgindo outras ruas e, também, mais uma outra capela. Dessa nova realidade falam os tombos de Alcobaça do século XVI.

 

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Figura 3 - O Prof. Doutor Luís Filipe Oliveira durante a conferência realizada na Biblioteca Municipal de Rio Maior. © Jornal Região de Rio Maior.

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