O Jornal O Riomaiorense e o Ideário Republicano

                                                    

 

 

                                         Por Maria Alzira Almeida

                                              Associada da EICEL1920

 

 

Na segunda metade do século XIX muitos liberais descontentes com o rumo seguido pela monarquia constitucional, começam a aderir aos ideais republicanos. Nenhum dos objetivos defendidos pela Revolução Francesa tinha sido concretizado. «Liberdade, Igualdade, Fraternidade» continuavam a ser uma utopia difícil de alcançar em Portugal. A velha aristocracia tinha sido substituída pela burguesia endinheirada que tinha adquirido em hasta pública os imensos bens dos conventos. O povo continuava miserável e analfabeto. O rotativismo não respondia às necessidades económicas e sociais do país.

 

Quando em 1890 a Inglaterra enviou o ultimato a Portugal, desejosa que estava de dominar a África do Cabo ao Cairo, colidindo com os interesses portugueses expressos no mapa cor de rosa, muitos liberais portugueses viraram as costas à Monarquia.

​Organizando-se como partido político, concorrem às eleições, defendendo sempre o ideário da Revolução Francesa, com especial ênfase na necessidade de instrução para todos.

 

Também em Rio Maior as novas ideias alastram, havendo um núcleo forte de republicanos aguerridos. Isso está claro na Correspondência de Rio Maior publicada no jornal de Santarém, O Debate. Os caciques são desmascarados, conta-se os êxitos republicanos e defende-se uma sociedade mais justa, passando sempre pela necessidade de instrução.

 

Implantada a República, bem cedo os republicanos se desentendem e dividem em três partidos. De forma idêntica, os republicanos de Rio Maior se dividem, apoiando os diferentes partidos que surgem.

 

Com os redatores de O Debate a defenderem acaloradamente o partido Democrático de Afonso Costa, e o núcleo de Rio Maior que se mostrava ao lado dos Evolucionistas, o entendimento tornou-se difícil.

 

A 4 de abril de 1912 nasce a segunda série de O Riomaiorense. No seu primeiro número diz ser um “semanário republicano, noticioso, literário, pedagógico, científico e recreativo, defensor dos interesses da comarca de Rio Maior”, “reflexo do pensamento de meia dúzia de homens que toda a vida lutaram com ardor pelos ideais republicanos” e adotam o slogan “Pela Pátria e pela República”, “Ordem e Trabalho”.  

 

A defesa da Instrução é semanal, seja na preocupação pela construção de escolas, nas notícias sobre a colocação dos professores, no êxito dos alunos sujeitos a exame, nas atividades extracurriculares como a “festa da árvore” ou a angariação de fundos para comprar um estandarte para a escola. Tudo fazem para impedir “que centenas de crianças [fiquem] nas trevas horríveis da ignorância”. No número de 11 de julho de 1912, analisando o problema da instrução, diz-se que “enquanto o nosso povo não for instruído, mas instruído segundo as modernas normas da ciência pedagógica, para o tablado da política subirão nulidades autênticas ou autênticas personagens imorais” e “enquanto o nosso povo não for instruído, mas instruído de forma a bem conhecer ao lado dos seus direitos, os seus deveres de cidadão de um país livre, o padre e o cacique dominarão”.

 

Era preciso mudar mentalidades. O Riomaiorense aparece com a preocupação de fazer a opinião pública, democrática e respeitadora. “O jornal jamais fará política partidária” pois “acima dos interesses individuais e partidários está o interesse da nossa querida terra”, pode ler-se no primeiro nº de 4 de abril de 1912. E a 14 de dezembro do mesmo ano, “se quer servir a República vá, partidariamente para onde entender, porque qualquer dos partidos que a representam, Evolucionista, Democrático, ou o Unionista, todos estão em igualdade de direitos; mas combata com lealdade, sem facciosismo”. E a 2 de outubro de 2015 – “É que na República portuguesa tem faltado aquele espírito de coesão que devia animar todos os seus homens mais em evidência, ainda mesmo que diferentes formas de pensar por momentos os dividissem”. E a 4 de dezembro, António Custódio dos Santos, na sua rubrica «Ao de Leve», a propósito da constituição de um ministério do partido Democrático escrevia – “Por mais que eu possa discordar da política seguida até agora pelo partido Democrático, não me parece que a ocasião seja propícia para uma guerra […] ao governo que acaba de se constituir […] fazer oposição na hora trágica que decorre, por ódio ou por facciosismo político mesmo, nem é de republicano, nem pode jamais ser de patriotas.

Isto é ser puramente democrata, é ser superior à maioria dos republicanos da época.

Concluindo, podemos afirmar que a segunda série de O Riomaiorense não só se inseriu no espírito da época, como o superou, defendendo sempre o bem do país e da região acima das questiúnculas partidárias.

 

Maria Alzira Almeida

 

Figura 1 - "Zé Povinho e a Liberdade". Caricatura de Rafael Bordalo Pinheiro, 1882.

"Concluindo, podemos afirmar que a segunda série de O Riomaiorense não só se inseriu no espírito da época, como o superou, defendendo sempre o bem do país e da região acima das questiúnculas partidárias."

 

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