(Arquivo) Memória Descritiva: Como foi descoberto o carvão em Rio Maior (4)

Por António Custódio dos Santos

In O Riomaiorense (2a. Série) no. 267, de 12 de Julho de 1919

 

 

 

 

Pedi-lhe, acto contínuo, para me acompanhar a esse local, e nessa mesma tarde, eu, o Sr. Siopa e meu cunhado João R. de Sequeira, estávamos em frente da referida matéria preta, que era um afloramento de carvão, de onde extraiu a porção necessária para uma experiência prática na forja. Uma vez na oficina, o carvão ardeu regularmente, e – caso singular – melhor que o da Várzea!

Pensei logo em abrir no Espadanal um poço de pesquisas, e informando-me que um dos proprietários daqueles terrenos era o meu velho amigo João Ribeiro Ferreira Canadas assentei que o poço a abrir seria na sua propriedade. O capital porém, como disse, já não abundava neste tempo e a abertura do poço foi-se adiando.

 

 

Minas de Manganês – Sais de Potássio e Carvão – Um contrato verbal.

 

 

Por esta ocasião estavam muito em voga as minas da Serra da Marinha, descobertas pelo Sr. Ayres de Sá, que têm segundo parece, uma percentagem regular de manganês, e que haviam trazido por várias vezes a Rio Maior, o ilustre português Sr. Padre Hymalaia.

Foi numa destas visitas que tomei conhecimento com aquele insigne homem de ciência, sendo com prazer que consegui levá-lo a fazer um passeio até à mina da Quinta da Várzea. O Sr. Padre Hymalaia mostrou-se primeiro reservado, mas continuando a vir a Rio Maior, e não deixando quase nunca de visitar a Quinta da Várzea, aumentando, por consequência, as suas relações comigo, declarou-me por fim, que aquilo não tinha valor e que, como amigo, me aconselhava a não gastar ali o meu rico dinheirinho!

 

Agradeci ao reverendo o seu conselho, mas teimoso como sempre fui, continuei os trabalhos.

O Sr. Ayres de Sá tinha igualmente registado na Câmara de Rio Maior, vinte minas de sais de potássio, cloreto de sódio, etc. e dizia-se que o Sr. Rev. Hymalaia também fazia parte da Empresa organizada para proceder aos trabalhos de pesquisas destas minas. Numa das suas frequentes visitas a Rio Maior, e depois de já me ter aconselhado a não gastar o meu rico dinheirinho, o Sr. Padre Hymalaia falando mais uma vez comigo, e confessando que admirava a minha rara persistência, larga-me de chofre: “Mas então se está convencido que Rio Maior é uma região carbonífera, porque não faz mais uns registosinhos em redor da Quinta da Várzea?

 

Confesso, que, sendo absolutamente leigo no assunto a que me havia dedicado, julgava até que um registo, apenas, de carvão, seria o bastante para que ninguém mais lhe pudesse mexer, pelo menos na área da freguesia respectiva.

A pergunta do Sr. Padre Hymalaia tirava-me porém, essa ilusão, e eu respondi sem me desmanchar:

“Não faço mais registos porque, como V. Ex.a sabe, não sou rico, e far-me-ía diferença, se tivesse de puxar, todos os anos por 100 ou 150 escudos para a renovação desses registos. Ando com os meus trabalhos de pesquisas e à maneira que for aparecendo carvão tenciono efectuar os registos.

Isto pode ser, convenho, um tanto perigoso, mas de fora creio que ninguém aqui virá registar coisa alguma e em Rio Maior, só os sócios de V. Ex.a ou o Sr. Ayres de Sá, particularmente, me poderão fazer mal. Julgo, todavia, que esses não pensam nisso, pois têm registado apenas sais de potássio, e assim como eu, procurando carvão, se encontrasse nas minhas pesquisas sais de potássio os não registaria, assim também estou certo que os sócios de V. Ex.a procederiam, se, procurando sais de potássio, encontrassem carvão em áreas não registadas por mim”.

 

O Sr. Reverendo Hymalaia respondeu de pronto:

“Não tenha disso a menor dúvida. Quanto a nós pode ficar descansado. Queremos apenas sais de potássio e o carvão não nos preocupa.

Por nossa causa pois, não gaste mais dinheiro; faça de conta que tem tudo registado, que os seus direitos serão por nós, do mesmo modo respeitados”!

Em face desta declaração que o insigne inventor da himalaite será, sem dúvida, o primeiro a confirmar, pois faço ainda hoje justiça às suas boas intenções e às suas nobres qualidades de inteligência e de carácter, fiquei absolutamente descansado:

Carvão para mim, e sais de potássio para o Sr. Ayres de Sá e seus sócios.

 

Ligado à firma Leites Sobrinhos & Ca. pensei mais uma vez abrir um poço de pesquisas no Espadanal. Desejava porém, que esse poço obedecesse a todas as regras mineiras e pedi aos meus sócios para me enviarem um capataz de minas, que pudesse dirigir esses trabalhos. Decorrem assim alguns dias, até que o meu amigo João Ribeiro Ferreira Canadas, a quem já havia pedido licença para abrir um poço na sua fazenda do Espadanal, me vem dizer que acabava de autorizar também o Sr. Ayres de Sá a efectuar uma sondagem para procurar sais de potássio na mesma fazenda e então que estivesse prevenido.

 

Este aviso amigo, confesso que me sobressaltou. Estava e estou há muitos anos de relações cortadas com o Sr. Ayres de Sá, mas conhecendo como conhecia e conheço, sem ofensa, o seu espírito demasiado ambicioso e avaro, tremi pelo que ele me poderia fazer, se acaso, na sondagem a que ia proceder no Espadanal, cortasse como era quase certo, alguma camada de carvão.

 

É claro que daí por diante, eu nunca perdi de vista as sondagens do Sr. Sá, e logo que elas começaram, no Espadanal, acompanhei-as metro a metro, se bem que raramente lá aparecesse.

 

Depois de ter cortado uma pequena camada de lenha fóssil, a sonda atravessa aos 30 metros de profundidade, aproximadamente, uma grande camada de lenhite ou carvão, à qual os operários que lidam com a sonda atribuem uma possança de 12 metros!!

 

O Riomaiorense (2a. Série) no. 267, de 12 de Julho de 1919.  © Arquivo O Riomaiorense
 

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