(Entrevista) MINEIROS. Um Retrato Social (7)

 

O Riomaiorense publicou na edição número 1, de 6 de Novembro de 2015, uma entrevista inédita com membros da Comissão de antigos funcionários da Empresa Industrial, Carbonífera e Electrotécnica, Limitada, criada no seio da EICEL1920, Associação para a Defesa do Património, tendo como objectivo o registo da história oral da antiga comunidade mineira de Rio Maior.

A publicação de entrevistas com antigos funcionários da Mina do Espadanal terá continuidade no presente número, com um registo escrito da autoria de Victor Centúrio de Almeida, em resposta às questões de O Riomaiorense, no qual são recuperaradas memórias das origens familiares, da integração no concelho de Rio Maior e da actividade mineira. O presente testemunho será publicado pelo autor em livro, sob o título "História Recente de Rio Maior", a apresentar brevemente.



 

1 - Origens familiares e integração no concelho de Rio Maior                        

 

 

O Riomaiorense: Quais as origens familiares e qual o motivo da fixação de residência no concelho de Rio Maior?

 

 

 

Victor Almeida: Nasci em Penamacor, em 12 de Fevereiro de 1949. A família da minha mãe Isabel pertencia aos Centúrios, e este meu agregado era de pequenos proprietários com pequenas parcelas de terrenos conservadas por herança em sortes, que se situavam próximo da fronteira com Espanha. Os meus avós moravam numa casa com paredes feitas de pedras escuras, que tinha sala ao meio e quartos de lado, no primeiro piso; no rés-do-chão habitava uma mula e o meu avô também tinha, nesse mesmo espaço, um alambique no qual destilava aguardente vinícola, no inverno frio.

 

O meu pai, aprendeu a ler e a escrever na tropa. Fazia letra e números de tamanho exagerado e com muitos erros; fez contrabando de açúcar, café e alpercatas, que trouxe de zonas próximas de pequenas aldeias espanholas para Penamacor, como Valverde del Fresno, localidade esta que fica a 30 quilómetros da minha terra natal, do outro lado da fronteira, no sopé da Serra de Gata, e de onde era natural Primo de Rivera, o ideólogo e mentor fascista do generalíssimo Franco. Um dia o meu pai contou-me uma das suas recordações, quando ficou detido durante 5 dias em Espanha. Tinha sido apanhado no contrabando de alimentos; entretanto o guarda abriu-lhe as portas deixando-o sair, sem mais problemas. Este guarda era de Penamacor, mas estava ao serviço dos espanhóis que combatiam os contrabandistas, píncaros de grande e forte personalidade, como eu considerava o meu pai.

 

Antes de ter sido mineiro em Rio Maior, o meu pai trabalhou numa mina em Penamacor e na pequena mina de volfrâmio do Palão, próxima desta vila, que entretanto encerrou a sua actividade. Muitos anos mais tarde, quando já estávamos em Rio Maior, visitámos esta mina, que não passava de grandes poços, sem outras construções. O meu pai era natural da Aldeia do Bispo, concelho de Penamacor, e que ficava a 8 quilómetros desta localidade. Decidiu transferir toda a família de Penamacor, de onde a minha mãe era natural, para a vila de Rio Maior, devido ao encerramento da mina do Palão, e depois de receber a resposta positiva duma carta de chamada dirigida a um engenheiro que tinha trabalhado na mina do Palão, e ao facto de uma central da fábrica de lanifícios da Covilhã passar a funcionar a electricidade, deixando de o ser a carvão, quando até então o meu pai era um dos fornecedores de troncos para a transformação em carvão vegetal de madeira de pinho, fonte de combustível da referida fábrica.

 

Viajámos então da estação de Caminho de Ferro da Fatela para Santarém, por comboio, tendo este, como equipamento, bancos duros feitos com ripas de madeira, meio receosos, curiosos e perplexos, porque era a primeira vez que viajávamos e de comboio, à excepção do meu pai que tinha viajado, cerca de um mês antes, para Rio Maior. Íamos, então, ao seu encontro. De Santarém para Rio Maior viajámos num autocarro de cerca de 20 lugares, e de cabina avançada, da empresa "Os vinagres", que na altura operava nestes itinerários ribatejanos.

 

O meu pai ganhava 45 escudos por mês, e era vigilante nas minas do Espadanal.

 

O Riomaiorense: Como recorda a importância da actividade mineira na vila de Rio Maior, na época em que a família fixou residência no concelho?

 

 

 

Victor Almeida: A exploração da lenhite e diatomite provocou um grande impacto nesta região: a não ter existido, Rio Maior não se distinguiria hoje dum pequeno burgo, quando nos últimos censos de 2010 se registaram mais de 8000 pessoas, e isto só considerando a vila, porque em todo o concelho existem populações em torno de diversas aldeias que totalizam cerca de 22 000 indivíduos. O projecto mineiro foi assim um grande pólo de desenvolvimento sócio-económico, ímpar nesta zona do Ribatejo e Oeste, ao integrar muitas famílias vindas de outras províncias portuguesas

 

O Riomaiorense: Que memórias guarda da integração da família em Rio Maior e da convivência dos riomaiorenses com os mineiros?

 

 

 

Victor Almeida: Inicialmente os riomaiorenses eram pessoas fechadas que, quando algum mineiro passava, à sua rua, estando à janela, depressa se fechavam, encerrando a ventana do primeiro andar, dentro da moradia, com receio destes considerados intrusos de então. Posteriormente, fez-se a integração social por via da escola e da influência da igreja local, e principalmente do clube de futebol "os mineiros", clube este que chegou a disputar o campeonato nacional da II divisão, só com uma equipa de trabalhadores das minas, e um ou outro jogador local. No início, em 1954, tal com dizia antes, quer a porta da entrada nas mesmas casas, quer as janelas do rés-do-chão, estavam sempre, mas sempre, fechadas e trancadas por dentro, não fossem os suspeitos e inocentes mineiros, pessoas de trabalho, nunca marginais, ou ladrões, como eram olhados pelos tais cínicos. Mas esse fecho de portas era mais por desconfiança de que os mineiros os assaltassem, mesmo durante o dia, coisa que nunca aconteceu. Depois das dez horas da noite não havia ninguém nas ruas da vila de Rio Maior, nem nas tabernas, nem nos dois ou três cafés que existiam nesta vila, até cerca do ano 1960.

 

 

Victor Centúrio de Almeida

Natural do concelho de Penamacor.

© Fernando Penim Redondo, 18 de Junho de 2014.

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