Para a História de Rio Maior na Idade Média (1)

 

 

                                         Por Luís Filipe Oliveira

                                         Universidade do Algarve / I.E.M-F.C.S.H.-Nova

 

 

 

 

Antes de entrar no tema que aqui nos congrega, gostaria de lembrar que a minha relação com Rio Maior, com a sua história e com as suas gentes, tem já alguns anos. Data ainda do século passado. Dos anos noventa, quando publiquei um artigo sobre a comunidade aldeã, em resultado de uma investigação feita para um seminário de mestrado em história medieval, orientado pela Professora Iria Gonçalves e realizado na Universidade Nova de Lisboa. Devo à Professora Iria Gonçalves a sugestão de trabalhar Rio Maior. Como queria estudar uma aldeia medieval, um tema então pouco trabalhado entre nós, foi ela que me indicou a aldeia, e, generosa como sempre, me deu boa parte da documentação que o mosteiro de Alcobaça reunira sobre Rio Maior. A esse núcleo original, juntei outros tantos documentos recolhidos na Torre do Tombo. Na ocasião, tinha informação suficiente para fazer a história da aldeia na Idade Média, embora só tenha publicado um artigo sobre a origem e o desenvolvimento da comunidade aldeã. Talvez volte um dia ao tema e a Rio Maior e daí resulte, quem sabe, um trabalho de maior envergadura.

 

Os documentos de arquivo conhecidos sobre Rio Maior são relativamente abundantes. Não é caso único, mas essa riqueza documental não é comum. Sobretudo numa aldeia, que não era um centro de escrita e de poder, mas uma parte pequena de um território mais vasto, disputado por muitos outros proprietários e sujeito à jurisdição de Santarém. No conjunto, conhecem-se perto de trezentos diplomas, maioritariamente saídos de fundos monásticos da região. Desde logo o Mosteiro de Alcobaça, mas também os mosteiros e as casas religiosas de Santarém, como S. Domingos, Santa Clara e Santa Maria da Alcáçova de Santarém. A estes núcleos documentais mais importantes, juntaram-se alguns diplomas provenientes de S. Cruz de Coimbra e das Ordens do Templo, do Hospital e de Avis. Entre estes, o arquivo da Ordem de Avis é o mais volumoso, sobretudo a partir de finais do século XIV, quando a Igreja de Santa Maria da Alcáçova, que era padroeira da Igreja de Rio Maior, foi integrada no património daquela Ordem. Também se conhece alguma documentação régia, em particular uma inquirição de 1308 feita no território de Santarém e que traz alguns dados sobre Rio Maior, para lá das cartas conservadas nas chancelarias régias, de um ou outro capítulo de Cortes, ou de alguns tombos régios, estes já do século XVI. Documentação rica e diversa, que atesta, no fundo, a importância dos recursos da aldeia, do ferro ao sal e às actividades agrícolas e ganadeiras.

 

Deste conjunto, há que destacar a documentação de Alcobaça, e, sobretudo, os vários tombos de propriedades e de direitos que o mosteiro mandou realizar. Esses inventários de bens e de direitos são relativamente abundantes para Rio Maior. O mais antigo data de 1252, mas foi copiado várias vezes, quer no século XIII, quer no XIV, e essas cópias trazem, por regra, actualizações importantes, que lançam alguma luz sobre as transformações sofridas pelos bens do mosteiro no espaço da aldeia. Conhece-se outro tombo de Alcobaça feito em finais do século XIV, um segundo realizado nos anos trinta do século XV e alguns outros do século XVI. Apesar de respeitarem apenas ao património do mosteiro de Alcobaça, aquele conjunto de tombos oferece dados únicos sobre a organização da aldeia, sobre as gentes que nela viviam, ou sobre o modo como estas ganhavam a vida.

 

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Figura 1 - O Prof. Doutor Luís Filipe Oliveira durante a conferência realizada na Biblioteca Municipal de Rio Maior. © Jornal Região de Rio Maior.

Nota:

O texto que aqui se publica é o resultado de uma conferência realizada durante as Jornadas Europeias do Património, em Rio Maior, a 28 de Setembro de 2018. Manteve-se a oralidade que o caracterizou, sem o sobrecarregar com notas, mas acrescentou-se-lhe uma bibliografia sumária.

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